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sábado, maio 02, 2009

Henry Miller - Trópico de capricórnio

“ Por não compreendermos a significação das palavras, nem eu nem meus amigos, uma coisa se tornou muito clara: que há maneiras de não compreender e que a diferença entre a não compreensão de um indivíduo e a não compreensão de outro cria um mundo de terra firma ainda mais sólido que as diferenças de compreensão. Tudo quanto outrora eu pensava ter compreendido desfez-se e eu fiquei como uma lousa limpa. Meus amigos, por outro lado, entrincheiravam-se mais solidamente na pequena vala de compreensão que haviam escavado para si próprios. Morreram confortavelmente em sua pequena cama de compreensão, para se tornarem cidadãos úteis do mundo. Senti pena deles e sem demora abandonei-os um a um, sem o menor pesar”.
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“Era mais ou menos nessa época que os dadaístas estavam em plena ação, para serem logo seguidos pelos surrealistas. Nunca ouvi falar de qualquer desses grupos senão uns dez anos depois. Nunca li um livro francês e nunca tive uma idéia francesa. Fui talvez o único dadaísta na América e eu não sabia disso. Pelo contato que tinha com o mundo exterior poderia muito bem estar vivendo nas selvas do Amazonas. Ninguém entendia sobre e o que eu escrevia ou por que escrevia daquela maneira. Eu era tão lúcido que me consideravam um pouco gira. Eu estava descrevendo o Novo Mundo – infelizmente um pouco cedo demais porque ele ainda não fora descoberto e ninguém se deixava convencer de que existisse. Era um mundo ovariano, ainda oculto nas trompas de Falópio. Naturalmente, nada estava claramente formulado: havia apenas a sugestão de uma tênue espinha dorsal visível, e certamente não havia braços ou pernas, nem cabelos, nem unhas, nem dentes. O sexo era a última coisa a ser sonhada; era o mundo de Cronos e sua progênie ovicular. Era o mundo do iota, sendo cada iota indispensável, assustadoramente lógico e absolutamente imprevisível. Não havia algo que fosse uma coisa, porque o conceito de “coisa” estava faltando.”

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