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sábado, maio 02, 2009
Le Clezio - The Interrogation
Albert Camus - The Mith of Sisyphus
There are again truisms. I shall again repeat that they are not interesting in themselves but in the consequences that can be deduced from them. I know another truism: it tells me that man is mortal. One can nevertheless count the minds that have deduces the extreme conclusions from it. It is essential to consider as a constant point of reference in this essay the regular hiatus between what we fancy we know and what we really know, practical assent and simulated ignorance which allows us to live with ideas which, if we truly put them to the test, ought to upset our whole life. Faced with this inextricable contradiction of the mind, we shall fully graps the divorce separating us from out own creations. So long as the mind keeps silent in the motionless world of its hopes, everything is reflected and arranged in the unity of nostalgia. But with its first move this world cracks and tumbles: an infinite number of shimmering fragmenst is offered to understanding. We must despair of ever reconstructing the familiar, calm surface which would give us peace of heart. After so many centuries of inquiries, so many abdications among thinkers, we are well aware that this is true to all our knowledge. With the exception of professional rationalists, today people despair of true knowledge. If the only significant history of human thought were to be written, it would have to be the history of its sucessive regrets and its impotences.
Of whom and of what indeed I can say: "I know that!" This heart within me I can feel, and I judge that it exists. This world I can touch, and I likewise judge that it exists. There ends my knowledge, and the rest is construction. For if I try to seize the self of which I feel sure, if I try to define and summarize it, it is nothing but water slipping through my fingers. I can sketch one by one all the aspects it is able to assume, all thos likewise that have been attributed to it, this upbringing, this origin, this ardour or these silences, this nobility or this vileness. But aspects cannot be added up. This very heart which is mine will for ever remain indefinable to me. Between the certainty I have of my existence and the content I try to give to that assurance, the gap will never be filled. For ever I shall be a stranger to myself. In psychology as in logic, there are truths but no trhuth. Socrates "Know thyself" has as much value as the "be virtuous" of our confessionals. They reveal a nostalgia at the same time as an ignorance. They are sterile exercises on great subjects. They are legitimate only precisely in so far as they are approximate. And here are trees an I know their gnarled surface, water and I feel its taste. These scents of grass and stars at night, certain evenings when the heart relaxes - how shall I negate this world whose power and strenght I feel? Yet all the knowledge on earth will give me nothing to assure me that this world is mine. You describe it to me and you teach me to classify it. You enumerate its laws and in my thirst for knowledge I admit that they are true. You take apart its mechanism and my hope increases. At the final stage you teach me that this wondrous and multi-colored univers can be reduced to the atom and that the atom itself can be reduced to the electron. All this is goos and I wait for you to continue. But you tell me of an invisible planetary system in which electrons gravitate around a nucleus. You explain this world to me with an image. I realize then that you have been reduced to poetry: I shall never know. Have I the time to become indignant? You have already changed theories. So that science has to teach me everything ends up in a hypothesis, that lucidity founders in metaphor, that uncertainty is resolved in a work of art. What need had I of so many efforts? The soft lines of these hills and the hand of evening on this troubles heart teach me muchh more. I have returned to my beginning. I realize that if through science I cn seize phenomena and enumerate them. I cannot for all that apprehend the world. Were I to trace its entire relief with my finger, I should not know any more. And you give me the choice between a description that is sure but that teaches me nothing and hypotheses that claim to teache me but are not sure. A stranger to myself and to the world, armed solely with a thought that negates itself as soon as it asserts, what is this condition in wich I can peace only by refusing to know and to live, in which the appetite for conquest bumps into walls that defy its assaults? To will is to stir up paradoxes. Everything is ordered in such a way as to bring into being that poisoned peace produced by thoughtlessness, lack of heart or fatal renunciations."
Clarice Lispector - Aprender a viver
Se se falar - ela não será compreendida. Alguns dirão - "mas todo o mundo..." como forma de consolo. Outros negarão simplesmente que houve culpa. E os que entenderem abaixarão a cabeça também culpada. Ah, quisera eu ser dos que entram numa igreja, aceitam a penitência e saem mais livres. Mas não sou dos que se libertam. A culpa em mim é algo tão vasto e enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento: tudo sabe mesmo de longe a cinzas.
Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados
Caio Fernando Abreu - Pequenas Epifanias
Clarice Lispector - A maçã no escuro
Salvação? Ele se espantou. E se fosse esta a palavra - seria então assim que ela acontecia? Então tivera ele que viver tudo o que vivera para experimentar o que poderia ter sido dito numa só palavra? se essa palavra pudesse ser dita, e ele ainda não a dissera. Andara ele o mundo inteiro, somente porque era mais difícil dar um só e único passo? se esse passo pudesse jamais ser dado!
O absurdo envolveu o homem, lógico, magnificente, horrível, perfeito - o escuro o envolveu. No entanto, por pouco que entendesse, ele pareceu sentir a perfeição que houvera no seu caminho obscuro até chegar ao bosque: havia nos seus passos uma perfeição impessoal, e era como se o tempo de uma vida tivesse sido rigorosamente calculado para a maturação de um fruto, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos - se o fruto amadurecesse! Porque o medo pareceu-lhe estabelecer uma harmonia, a harmonia terrificante - digo-te, deus, eu te compreendo! - e ele de novo acabara de cair na armadilha da harmonia como se às cegas e por caminhos tortos tivesse executado em pura obediência um círculo fatal perfeito - até encontrar-se de novo, como agora se encontrava, e no mesmo ponto de partida que era o próprio ponto final. E se esse caminho apenas circular acabara de tornar inúteis todos os passos que ele dera, no fundo mesmo de seu medo o homem de repente pareceu concordar com esse caminho, com dor e com medo pareceu admitir que sua natureza desconhecida jamais fosse mais poderosa que sua liberdade. Pois de que me valeu a liberdade, gritou-se ele. Não fizera nada dela...
De que lhe valera a liberdade profunda mas sem poder. Ele tinha tentado inventar um novo modo de ver ou entender ou de organizar, e tinha querido que esse modo fosse tão perfeito quanto o da realidade. Mas o que experimentara fora apenas a liberdade de um cão sem dentes. A liberdade de ir em busca da promessa que o rodeava - pensou o homem tremendo. E tão vasta era a promessa que, se a pessoa a perdia de vista por um segundo, então se perdia de si própria num mundo vazio e completo que não parece precisar de um homem a mais. Perdia-se até que exaustivamente, e nascida do nada, se erguesse a esperança. Então quem gritasse mais alto ou ganisse mais melodioso seria o rei dos cães. Ou quem se ajoelhasse mais profundamente - pois ajoelhar-se ainda era um modo de instante por instante não perder de vista a promessa. Ou então quem se revoltasse. A sua greve!
A sua greve, que era a única coisa de que até hoje ele podia se orgulhar.
Até que de novo nascesse o desejo de um cão sem dentes? Sim, assim o era. E tudo isso até um dia morrer? Pois se morria. No seu medo o homem viu que morria. E se não fosse a dor - que era a nossa resposta - seria apenas assim: ter-se-ia morrido um dia?
Mas não tão simplesmente! gritou o homem apavorado. Pois no escuro ele pareceu ter a grande intuição de que se morre com a mesma intensa e impalpável energia com que se vive, com a mesma espécie de oferenda que se faz de sim, e com aquele mesmo mudo ardor, e que se morria estranhamente feliz apesar de tudo: submisso à perfeição que nos usa. A essa perfeição que fazia com que, até o último instante da vida, se farejasse com intensidade o mundo seco, se farejasse com alegria e aceitando... Sim, por fatalidade de amor, aceitando, por estranha adequação, aceitando...
Apenas isso? Quase nada! ainda rebelou-se o homem, mas meu deus isso é quase nada,
Não, isso é muito. Porque, por deus, havia muito mais que isso. Para cada homem provavelmente havia um certo momento não-identificável em que teria havido mais que farejar: em que a ilusão fora maior que se teria atingido a íntima veracidade do sonho. Em que as pedras teriam aberto seu coração de pedra e os bichos teriam aberto seu segredo de carne e os homens não teriam sido "os outros", teriam sido "nós", e o mundo teria sido um vislumbre que se reconhece como se tivesse sonhado com ele; para cada homem teria havido aquele momento não-identificável em que se teria aceito mesmo a monstruosa impaciência de deus? Essa impaciência que permitia que homens durante séculos aniquilassem com o mesmo obstinado erro os outros homens. A monstruosa bondade de deus não tem pressa. Aquela sua certeza que fazia com que ele permitisse que o homem assassinasse - porque sabia que um dia esse homem teria medo e nesse instante de medo, enfim capturado, enfim impossibilitado de não encarar o próprio rosto, esse homem diria "sim" àquela harmonia feita de beleza e horror e perfeição e beleza e perfeição e horror: a perfeição que nos usa.
E esse homem, com grande respeito do medo, diria "sim", mesmo sabendo com vergonha que este seria seu maior crime talvez: porque havia uma falta essencial de direito de um homem se agregar à divindade - até que ponto um homem tinha o direito de ser divino e dizer sim? Pelo menos não antes de arrumar os seus negócios! Mas não. Mesmo sem saber como arrumar nossos negócios o homem terminaria cometendo o crime de dizer sim. Pois atingido o nó incompreensível do sonho aceitava-se este grande absurdo: que o mistério é a salvação.
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É preciso saber viver para viver, porque o outro lado, minha senhora, nos espreita a cada passo: um movimento desastrado e de repente um homem que está andando parece um macaco! só um descuido, e em vez de ficar perplexa a gente ri! Um desfalecimento, minha senhora, e amor é perdição. Requer-se arte, minha senhora, muita arte, pois sem ela a vida erra. E muita sagacidade, pois o tempo é curto, há de se escolher numa fração de segundo entre uma palavra e outra, entre lembrar e esquecer, é preciso técnica!"
Robert Musil - O homem sem qualidades
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“A corrente e pulsação que fluem sem cessar através de todas as coisas que nos rodeiam parara por um momento. Eu sou apenas casual, troçava a Necessidade; não pareço essencialmente diferente do rosto de um doente de lúpus, quando me contemplam sem preconceito, admitiu a Beleza. No fundo, não era preciso muita coisa; um verniz caíra, uma ilusão caíra, um traço de hábito, expectativa e tensão se rasgara, um equilíbrio fluido e secreto entre sentimento e mundo inquietara-se por um segundo. Tudo o que sentimos e fazemos acontecer de certa forma “na direção da vida”, e o menor movimento fora dessa direção é difícil ou assustador. É assim quando caminhamos: erguemos o centro de gravidade, empurramo-lo para diante e o deixamos cair; mas uma diminuta mudança, um pouco de receio desse lançar-se-no-futuro, ou simplesmente o espanto por fazermos isso, e já não podemos ficar em pé! É melhor não refletir. E Ulrich lembrou-se de que todos os momentos importantes e decisivos na sua vida tinham-lhe deixado uma sensação semelhante àquela”.
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“Nesses momentos nada tão distante quanto a idéia de que a vida que se leva, e que leva a gente, não nos interessa muito, não intimamente. Mas todo homem sabe disso enquanto é jovem. Ulrich recordava muito como lhe parecera um dia daqueles nestas ruas, há uma década ou década e meia. Tudo fora ainda uma vez tão magnífico, e contudo, naquele anseio fervente havia um doloroso pressentimento de cativeiro, uma sensação inquietante: tudo o que penso alcançar, me alcança; estou corroído por uma suspeita de que neste mundo as manifestações falsas, levianas e impessoais ecoam mais intensamente do que as íntimas e essenciais. Essa beleza – pensamos – tudo bem, mas será a minha? A verdade que eu conheço, será a minha verdade? Os objetivos, vozes, realidades, tudo isso me seduz, me atrai e me leva, que sigo e em que me precipito... será a verdade real, ou dela se mostra apenas um sopro inacessível, pousados sobre a realidade oferecida?”
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“Talvez para a maioria das pessoas seja agradável e seguro encontrar o mundo já pronto à exceção de algumas ninharias pessoais, e não se deve duvidar que o duradouro não é apenas conservador, mas também fundamenta todos os progressos e revoluções, embora isso cause um profundo e espectral desconforto às pessoas independentes”
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“Antigamente ser uma pessoa conferia um amplo pano de fundo à indagação pessoal de Ulrich. As pessoas pareciam-se com espigas de cereal; talvez fossem mais violentamente abaladas por deus, granizo, fogo, peste e guerra do que agora, mas o eram em conjunto, como cidade, campo país; e o que restava de movimento pessoal à espiga isolada era uma responsabilidade que se podia tomar, algo claramente delimitado. Hoje, em contrapartida, a responsabilidade já não tem o seu centro de gravidade no homem, mas em contextos objetivos. Não notaram que as vivências agora independem das pessoas? Transferiram-se para os teatros, os livros, os relatórios dos centros de pesquisa e viagens de estudos, estão nas comunidades ideológicas ou religiosas, que desenvolvem certos tipos de vivência à custa de outros, como uma tentativa experimental no campo social. E na medida em que hoje as vivências nação se situam no trabalho, ficam no ar; quem ainda pode dizer, hoje em dia, que sua raiva é realmente sua raiva, quanto tantas pessoas se metem no assunto e entendem mais do que ela?! Surgiu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem quem as vive, e quase parece que, num caso ideal, o ser humano já não vive mais nada pessoalmente, e o amável peso da responsabilidade pessoal se dilui num sistema de fórmulas de significados possíveis. Provavelmente a diluição do comportamento antropocêntrico que julgou o homem o centro do universo, mas há séculos está desaparecendo, por fim chegou ao próprio eu; pois a crença de que o mais importante na vivência é que se a viva, e na ação o mais importante é que se haja, começa a parecer ingenuidade para a maioria das pessoas. Mas ainda há quem viva de maneira inteiramente pessoal. Eles dizem “ontem estivemos aqui ou ali”, ou “hoje vamos fazer isso ou aquilo”, e se alegram, sem que seja necessário que tudo isso tenha outro conteúdo ou significação. Gostam de tudo o que podem tocar com os dedos, e são tão absolutamente indivíduos particulares quanto é possível ser: o mundo torna-se seu mundo particular assim que tem a ver com eles, e brilha como um arco-íris. Talvez sejam muito felizes, mas esse tipo de gente habitualmente parece absurdo aos outros, embora não se saiba por quê.
E de repente, pensando nisso, Ulrich teve de admitir, sorrindo, que ele era um caráter, sem ter caráter algum.”
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“ A comparação do mundo com um laboratório despertara nele outra vez uma idéia antiga. Um grande centro de experiências, onde se testavam as melhores maneiras de se fazer uma pessoa, e se deveriam descobrir novas: antigamente, muitas vezes se imaginara que a vida teria que ser assim, para lhe agradar. O fato de esse laboratório geral trabalhar sem grande planejamento, e de não haver diretores e teóricos, era outro assunto. Ele próprio gostaria de ser príncipe e senhor do espírito: quem não o quereria?! É natural que o espírito seja considerado a coisa mais elevada, dominando todas as demais. É o que se ensina. Quem pode, enfeita-se com o espírito, coloca-o nos debruns da sua personalidade. Ligado a alguma coisa, o espírito é a coisa mais difundida que existe. O espírito da lealdade, o espírito do amor, um espírito disso, um espírito daquilo, e queremos agir no espírito do nosso movimento: como isso parece sólido e inatacável até os degraus inferiores. Tudo mais, o crime cotidiano ou a cobiça obstinada, parecem algo inconfessável, como sujeira que deus tirasse das unhas dos pés”
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”Isso lembrou Ulrich novamente daquela idéia bastante duvidosa em que por muito tempo acreditara, e que até hoje não eliminara inteiramente, de que o mundo seria melhor dirigido por um senado de sábios e mentes avançadas. É muito natural pensar que o ser humano, que se deixa tratar por médicos especialistas quando está doente, e não por pastores de ovelhas, não tem motivo, quando sadio, de se deixar tratar por falastrões com mentalidades de pastores de ovelhas como costuma fazer em assuntos públicos. E jovens que se interessam pelos conteúdos essenciais da vida consideram secundário tudo no mundo que não for verdadeiro, nem bom, nem belo; por exemplo, também o Ministério da Fazenda ou um debate no Parlamento; pelo menos antigamente eram assim, pois hoje em dia, graças à educação política e econômica, dizem que são diferentes. Mas também naquele tempo o homem aprendia a adaptar-se à realidade quando ficava mais velho e freqüentava mais tempo os defumadores de espírito onde o mundo curte o seu toucinho comercial; e o estado definitivo de uma pessoa de formação intelectual era mais ou menos limitado à sua “especialidade”, carregando pelo resto da vida a convicção de que tudo talvez devesse ser diferente, mas que não adiantava nem refletir sobre isso. Mais ou menos assim parece o equilíbrio interno das pessoas que realizam alguma coisa intelectualmente. E de repente, de maneira cômica, Ulrich imaginou tudo isso numa pergunta: ao fim de tudo, havendo certamente suficiente espírito, não faltaria apenas que o espírito tivesse espírito?
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Teve vontade de rir disso. Ele próprio era um daqueles que renunciavam. Mas uma ambição decepcionada, ainda viva, o trespassava como uma espada. Dois Ulrichs caminhavam naquele instante. Um olhava em torno, sorrindo, e pensava: “Ali eu quis desempenhar um dia um papel, entre cenários como esses. Um dia eu despertei, não docemente como no colo da mãe, mas com a certeza dura de que tinha que realizar alguma coisa. Deram-me lemas, e senti que não me interessavam em nada. Naquele tempo meus propósitos e expectativas enchiam tudo, como o nervosismo antes de entrar em cena, Mas nesse meio tempo o chão deslizou imperceptivelmente, avancei um trecho de meu caminho e talvez já esteja na saída. Em breve estarei fora de cena, e meu grande papel será dizer: os cavalos estão selados. Que o diabo carregue tudo isso!”
Mas enquanto um Ulrich andava pelas flutuações da noite sorrindo desses pensamentos, o outro cerrava os punhos, com dor e raiva; era o menos visível, pensava encontrar uma fórmula de esconjuro, uma alça por onde pudesse agarrar o verdadeiro espírito do espírito, o que faltava, talvez apenas o pedacinho que fecha o círculo rompido. Esse segundo Ulrich não encontrava palavras. Palavras saltam como macacos de árvore em árvore, mas no reino escuro das raízes não dispomos da sua amistosa intermediação. O chão corria debaixo dos pés dele. Mas conseguia abrir os olhos. Uma emoção consegue soprar como uma tempestade, mas não ser em absoluto uma emoção tempestuosa? Quando se fala em tempestade das emoções, fala-se de uma tempestade que faz gemer as cascas do ser humano e voarem seus galhos como se fossem partir. Mas aquela tempestade deixava a superfície totalmente lisa. Quase um estado de conversão, de inversão; nenhum traço se distorcia, e por dentro nenhum átomo parecia continuar em seu lugar. Ulrich estava bem lúcido, mas seu olhar percebia de maneira nova todas as pessoas que passavam, e seu ouvido assimilava de novo modo cada melodia. Não se podia dizer que era um jeito mais acurado; na verdade também não era mais profundo, mas delicado, natural ou não natural. Ulrich não conseguia dizer nada, mas pensou naquele momento na singular experiência “espírito”, como numa amada que sempre nos traiu sem que por isso a amássemos menos, e esse sentimento o ligava a todas as coisas que deparava agora. Pois quando se ama, tudo é amor, ainda que seja sofrimento e repulsa.
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“O mundo poderia ser mudado a cada momento, em todas as direções, ou pelo menos, em qualquer sentido que se quisesse; isso é, por assim dizer, de sua natureza. Por isso, seria uma maneira estranha de viver, tentar não se portar como uma pessoa definida num mundo definido, no qual basta mudar de lugar alguns botões, o que se chama de evolução; mas, de saída, viver como um ser nascido para transformações, incluído num mundo em transformação, mais ou menos como uma gotinha d´água numa nuvem.”
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“ A idéia é o maior paradoxo do mundo. A carne se liga às idéias como um fetiche. Torna-se mágica quando há uma idéia presente. Uma vulgar bofetada pode tornar-se mortal pela idéia da honra, do castigo ou algo assim. Mas as idéias jamais se mantém no estado em que são mais fortes; são como aquelas substâncias que em contato com o ar imediatamente se transformam em outra, mais durável, mais corrompida. Você viu isso algumas vezes: surge uma idéia; é você, num determinado estado. Alguma coisa sopra em você; como um súbito rumor de cordas, surge um som; alguma coisa se coloca diante de você como uma miragem; da confusão de sua alma formou-se um cortejo infinito, e todas as belezas do mundo parecem estar paradas à beira da estrada. Muitas vezes uma só idéia provoca isso. Mas depois de algum tempo, ela começa a se parecer com todas as outras idéias que você já teve, submete-se a elas, torna-se parte de suas concepções e de seu caráter, de seus princípios ou de seus estados de alma; ela perdeu as asas, e assumiu uma solidez totalmente desprovida de mistérios.”
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“Mas você não sabe que toda a vida perfeita seria o fim da arte?”
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“Imagine o que acontece hoje em dia: quando um homem importante coloca uma idéia no mundo, ela é imediatamente submetida a um processo de distribuição que consta de simpatia e repulsa; primeiro, os admiradores arrancam grandes nacos que mais lhe agradam (!) , e devoram o seu mestre como raposas devoram carniça, depois os adversários eliminam os pontos fracos, e, em breve, de toda a façanha nada sobra senão uma provisão de aforismo, não existe um sim no qual não se possa pendurar um não. Você pode fazer o que quiser, sempre vai encontrar vinte das mais belas idéias a favor, e se procurar, vinte contra. Seria de acreditar que é como no amor, no ódio e na fome: o gosto tem de ser diferente, para todos terem a sua parcela”
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“As falas das pessoas importantes, que agem em grande escala, habitualmente têm menos conteúdo que as nossas. Pensamentos que têm uma relação particularmente próxima com objetos especialmente dignos, habitualmente pareceriam bastante retardados caso não fosse esse privilégio. Nossas tarefas mais caras, relacionadas com a nação, a paz, a humanidade, a virtude e outras coisas desse tipo carregam em suas costas a flora espiritual mais banal. Seria um mundo bastante distorcido; mas quando se pensa que o tratamento de um tema pode ser tanto mais insignificante quanto mais importante o tema, vê-se que é um mundo da ordem”
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"Todo o nosso saber provém do fato de não sermos severos demais nem ficarmos esperando o saber supremo; a Idade Média fez isso, e continuou ignorante".
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"Quem quiser construir sobre terra firme no ser humano, deve servir-se unicamente de qualidades e paixões inferiores, pois só o que se liga mais estreitamente ao egocentrismo tem solidez e pode ser levado em conta por toda parte; as intenções mais elevadas não são confiáveis, são contraditórias e fugazes como o vento"
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"Não queria mais saber o que acontecia lá fora. Havia guerra, em algum lugar. Em algum lugar celebrava-se um grande casamento. O rei do Beluquistão chega agora... pensou. Por toda parte, os soldados faziam exercícios, as prostitutas vagavam, os carpinteiros estavam parados sob armações nos telhados. Nas tavernas de Stuttgart a cerveja transbordava das mesmas torneiras amarelas e recurvadas que em Belgrado. Quando se anda por aí, policiais nos pedem documentos. Por toda parte colocam mais um carimbo neles. Por toda parte há percevejos ou não há. Há trabalho ou não. as mulheres são todas iguais. Os médicos nos hospitais são todos iguais. Quando voltamos do trabalho à noite, as pessoas estão na rua e não fazem nada. Sempre e por toda a parte a mesma coisa: as pessoas não têm idéias novas. Quando o primeiro aeroplano passou pelo céu azul"
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"Os crimes realmente grandes não existem porque os cometemos mas porque deixamos que aconteçam!"
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"Um homem de ciência é limitado exatamente no seu sentimento, o homem prático mais ainda. Isso é tão necessário como a firmeza das pernas quando queremos pegar um peso com os braços"
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"Sem dúvida, sua forma de religiosidade não seria incompatível com isso, porto que ele deixava a deus o divino e aos santos a santidade intacta; mas lhe era inconcebível desistir de sua personalidade, sendo seu ideal do mundo uma comunidade de personalidades morais plenamente responsáveis, batalhões civis de deus, em luta contra a volubilidade da natureza animal, e santificando o cotidiano, sem deixar, entretanto, de orná-lo com as grandes obras da arte e da ciência. Se alguém tivesse recontando a sua divisão do dia, teria verificado por isso que, em todas as variantes, resultava em apenas vinte e três horas, faltando assim sessenta minutos para completar um dia, e, desses sessenta minutos, quarenta estavam para todo o sempre destinados às conversas com outras pessoas e à ocupação afetuosa com seus propósitos e características, no que ele incluía também a visita a exposições de arte, concertos e diversões. Odiava tais espetáculos. Pelo conteúdo que tinham, eles quase sempre feriam o seu íntimo e, em sua concepção, essas manifestações desordenadas e supervalorizadas eram um carnaval da notória dilaceração nervosa dos tempos presentes. Ele chegava a sorrir aterrado por trás de seus ralos bigodes quando, em tais ocasiões via "machos e fêmeas" perpetrando, com as faces em fogo, a idolatria da cultura. Eles não sabiam que a energia vital aumenta pela restrição e não pela dispersão. Sofriam invariavelmente por medo de não terem tempo para tudo, e não sabiam que ter tempo nada mais significa que não ter tempo para tudo. Lindner descobrira que se está mal dos nervos não por causa do trabalho e sua velocidade, réus da época, mas, pelo contrário, como conseqüência da cultura e do humanitarismo, das pausas para repouso, interrupções no trabalho, minutos desocupados, em que o homem gostaria de viver a si mesmo e procura algo que possa considerar belo, divertido ou importante: é desses minutos que brotam os miasmas da impaciência, infelicidade e falta de sentido. Tal era a sua sensação, e, por ele, quer dizer, pelo que contemplava nesses momentos, teria varrido com vassoura de ferro esses templos da arte para substituir os pretensos acontecimentos do espírito por festas do trabalho, festas edificantes, intimamente relacionadas ao labor cotidiano; no fundo, bastava tomar, de toda uma época, apenas uns poucos minutos diários, cuja doentia existência é devida a um liberalismo mal compreendido. Ele, entretanto, nunca tivera a firmeza de defender isso em público, seriamente, sem limitar-se a meras alusões.
E, de repente, Lindner levantou os olhos, pois, durante esses devaneios cerebrais continuava no bonde, e sentiu-se tomado da agitação e angústia geradas por indecisão e impedimento. Por um momento, teve a confusa impressão de ter pensado o tempo todo em Ágata, honrada assim pelo fato de um mau humor, que começara ingenuamente como apreço por Goethe, agora se fundir com ela, embora para tanto não houvesse motivos palpáveis. Como de hábito, Lindner dirigiu a isso exortações a si próprio: "Dedica uma parcela de tua solidão à serena reflexão sobre teu próximo, principalmente se não concordas com ele: talvez venhas então a entender e usar melhor o que te causa repulsa, e aprendas a poupá-lo na fraqueza e a encorajá-lo na virtude que possivelmente está apenas intimidada!", sussurrou de lábios fechados. "
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" (...) na vida, procuramos o que é firme com a mesma insistência de um animal terrestre caído na água. Por isso, sobreestimamos tanto a importância do Saber, do Direito e da Razão, quanto a necessidade de coerção e violência. Talvez não deva dizer exatamente sobreestimar; seja como for, porém, as manifestações de nossa vida repousam, em sua maioria, na insegurança espiritual. Nela imperam a fé, suposição, hipótese, presságio, desejo, dúvida, inclinação, exigência, preconceito, persuasão, exemplificação, pontos de vista pessoais e outros estados de semicerteza. E como, nessa escala, a opinião se encontra mais ou menos no meio entre fundamento e arbítrio, uso seu nome para designar o todo. Se o que exprimimos com palavras, mesmo que grandiosas, em geral é mera opinião, o que exprimimos sem palavras o é sempre.
Digo, pois: no que depende de nós, nossa realidade é, em maior parte, apenas expressão de opinião, embora lhe emprestemos sabe-se lá que importância. Podemos imprimir uma expressão determinada à nossa vida na pedra das casas - isso sempre se dá por causa de uma opinião. Há algum tempo que Ágata e eu adquirimos sensibilidade par a uma certa agitação de fantasmas dentro do real. Cada detalhe expressivo do que nos rodeia "fala conosco". Dá uma opinião. Mostra que absolutamente não surgiu uma intenção passageira. É apenas uma opinião, mas se comporta como convicção. É mera idéia, mas age como se fosse vontade inabalável. Eras e séculos se erguem de pernas fincadas, mas por trás deles uma voz sussurra: absurdo" Até hoje nunca chegou a hora, nem o tempo."
Clarice Lispector - DIES IRAE
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou é ocupar-se. Nenhuma ocupação me agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que fiz com amor estraçalhou-me. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia."
G. Rosa - Grande Sertão Veredas
“despedir dá febre”
“cada hora, cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo”
Goethe - Fausto
A matéria, porém, a unge sempre ao chão;
Se alcanças deste mundo os bens e a loura palma
Da glória, tudo é engodo e constante ilusão.
E às belezas da vida, e aos puros sentimentos,
Envilecem, da terra os ferozes tormentos;
E quando a fantasia abre asas e voa
No espaço, para o eterno, em sonhos e esperanças,
Basta pequeno abrigo, enquanto além ecoa
Vendaval que desfaz venturas e bonanças
O infortúnio se esconde e se abisma no peito,
As dores acalenta então insatisfeito
E da vida perturba o sossego e o prazer
Sempre com nova máscara a fazer sofres
Ora luxo, ora lar, mulher, criança aflora;
Qual fogo, água, atroz veneno, até punhal;
Tremes perante tudo o que não tens, mortal!
E aquilo que perdeste, em lágrimas deplora!
Não sou de deus a imagem! Sinto-o profundo.
Pareço mais um verme, e no pó vivo imundo;
Que do pó se alimenta e nele sempre exulta,
Se o pé do itinerante poupa e não o sepulta”
Raduan Nassar - Um copo de cólera
“Num mundo estapafúrdio – definitivamente fora de foco – cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! Me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi i exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes...”
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“fácil concluir que dois e dois são quatro à sombra duma figueira, queria era ver alguém puxar as linhas e outros segmentos, fechar rigorosamente um círculo, demonstrar enfim um teorema em plena fogueira do inferno”
Cacaso
O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.
As duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema
Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste
problema.
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Quem de dentro de si não sai
vai morrer sem amar ninguém
A parte perguntou para a parte qual delas
é menos parte da parte que se descarte.
Pois pasmem: a parte respondeu para a parte
que a parte que é mais - ou menos - parte
é aquela que se
reparte
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Meditação
Com meu amor eu me envolvo felizmente.
Mas também me des
envolvo
infelizmente?
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Ah!
Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse memória!
Como seria menos linda e mais suave
minha história!
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Falando sério
Outro amor? Não caio mais.
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Ré menor
fazendo versinho
querendo carinho
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Estilhaço
não me procure mais
não relembre
cada um sofre pra seu
lado
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Encontro desmarcado
admiro muito meu amor
porque está sempre perto de si mesma e
longe de mim e eu tenho
andado muito longe de mim e perto de si mesma
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Contando vantagem
Muitas mulheres na minha vida.
Eu é que sei o quanto dói.
Sommerset Maughan - Razor´s Edge
I used to listen to the monks repeating the Lord´s Prayer; I wondered how they could continue to pary without misgiving to their heavenly father to give them their daily bread. Do children beseech their earthly father to give them sustenance? They expect him to do it, they neither feel nor need to feel gratitude for him for doing it, and we have only blame for a man who brings children into the world that he can´t or won´t provide for. It seemed to me that if an omnipotent creator was nor prepared to provide his creatures with the necessities of existence, material and spiritual, he´d have done better not to create them."
Clarice Lispector - A paixão segundo G.H.
E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes, não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo mundo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade. "
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"Quando uma pessoa é o próprio núcleo, ela não tem mais divergências. Então ela é a solenidade de si própria, e não tem mais medo de consumir-se ao servir ao ritual consumidor - o ritual é o próprio processar-se na vida do núcleo, o ritual não é exterior a ele: o ritual é inerente".
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"O divino para mim é o real.
Mas beijar o leproso não é bondade sequer. É auto-realidade, é autovida - mesmo que isso também signifique a salvação do leproso. Mas é antes a própria salvação. O benefício maior do santo é para com ele mesmo, o que não importa: pois quando ele atinge a própria largueza, milhares de pessoas ficam alargadas pela sua largueza e dela vivem, e ele ama tanto os outros assim como ama o seu próprio terrível alargamento, ele ama seu alargamento com impiedade por si mesmo. O santo quer se purificar porque sente a necessidade de amar o neutro? de amar o que não é acréscimo e de prescindir do bom e do bonito. A grande bondade do santo - é que para ele é tudo igual. O santo se queima até chegar no amor do neutro. Ele precisa disso para ele próprio.
Entendi então que, de qualquer modo, viver é uma grande bondade para com os outros. Basta viver, e por si mesmo isso resulta na grande bondade. Quem vive totalmente está vivendo para os outros, quem vive a própria largueza está fazendo uma dádiva, mesmo que sua vida se passe dentro da incomunicabilidade de uma cela. Viver é dádiva tão grande que milhares de pessoas se beneficiam dela a cada dia."
Musill
Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
“Também, porque diabo não era azul? Disse comigo.
E esta reflexão – um das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos braços, braços, pernas, um ar divino, uma estrutura colossal. Então disse consigo: ”este é provavelmente o inventor das borboletas”. A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou que o melhor modo de agradar o seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia. Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo: aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que era melhor para ela ter nascido azul”
Saramago - Ensaio sobre a cegueira
Henry Miller - Trópico de capricórnio
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“Era mais ou menos nessa época que os dadaístas estavam em plena ação, para serem logo seguidos pelos surrealistas. Nunca ouvi falar de qualquer desses grupos senão uns dez anos depois. Nunca li um livro francês e nunca tive uma idéia francesa. Fui talvez o único dadaísta na América e eu não sabia disso. Pelo contato que tinha com o mundo exterior poderia muito bem estar vivendo nas selvas do Amazonas. Ninguém entendia sobre e o que eu escrevia ou por que escrevia daquela maneira. Eu era tão lúcido que me consideravam um pouco gira. Eu estava descrevendo o Novo Mundo – infelizmente um pouco cedo demais porque ele ainda não fora descoberto e ninguém se deixava convencer de que existisse. Era um mundo ovariano, ainda oculto nas trompas de Falópio. Naturalmente, nada estava claramente formulado: havia apenas a sugestão de uma tênue espinha dorsal visível, e certamente não havia braços ou pernas, nem cabelos, nem unhas, nem dentes. O sexo era a última coisa a ser sonhada; era o mundo de Cronos e sua progênie ovicular. Era o mundo do iota, sendo cada iota indispensável, assustadoramente lógico e absolutamente imprevisível. Não havia algo que fosse uma coisa, porque o conceito de “coisa” estava faltando.”
João Ubaldo
Clarice Lispector - Brincar de pensar
Isso, enquanto jogo leve. Pois pensar fundo – que é grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem, Além do mais, exige-se muito de quem nos assiste a pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também de ter dado a pensar. Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.
Bom, mas, quanto a pensar com divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Alguns risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo.
Como hobby apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do lar seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas, pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde, só de noite é que não aconselho.
Uma vez, por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa pra lavar fora – eu estava fazendo um rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter o caderno limpo como o de escola, escrevi: rol de... E foi nesse instante em que a vontade de não ser séria chegou. É o primeiro sinal de animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi, esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isso tive que deixar pra ser depois – o outro sinal de estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender.
Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por uma pessoa de quem não gosto – como se chama o que eu sinto? A saudade que de tem da pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?
Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero”
Nietzsche - Zaratustra
“Felizes estes sonolentos, que em breve adormecerão”
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“Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.”
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“O Tu é mais antigo do que o Eu; o Tu está santificado, mas não o Eu: é por isso que o homem se afadiga ao redor do próximo”
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“Deus é uma hipótese, mas quero que a vossa hipótese se limite ao concebível. Podeis conceber um deus – Mas que isto signifique a vossa vontade de ser verdadeiro. Para que tudo se transforma em uma coisa concebível, visível, sensível para o homem! Deveis pensar em vossos sentidos até o fim!”
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“E ultimamente ouvi-o dizer estas palavras: Deus morreu por causa de sua piedade pelos homens”
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“Mas todos os criadores são duros”
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“Pregadores da igualdade, é o delírio tirânico da impotência em que vós reclama a igualdade, os vossos mais secretos desejos de tirania ficam assim mascarados com a palavra virtude”
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“E aquele que busca o conhecimento deve aprender a construir montanhas! Deslocar montanhas é bem pouca coisa para o espírito, sabíeis isto?”
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“As coisas são assim entre nós três. No fundo, só amo a vida – e, na verdade, nunca a amo tanto quanto a odeio!
Mas se sou favorável à sabedoria e muitas vezes demasiado favorável, é porque ela me recorda muito a vida”
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“Ainda que seja terrível, falemos destas coisas, ó sábio entre os sábios. Calar é pior: todas as verdades caladas se tornam venenosas”
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“Sabemos muito poucas coisas e somos muito maus alunos: torna-se portanto necessário que mintamos”
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“Se se tira ao corcunda a sua corcunda, tire-se-lhe ao mesmo tempo o espírito – assim fala o povo. E se se dá vista ao cego, ele verá demasiadas coisas más à face da Terra, de tal forma que há-de amaldiçoar aquele que o curou. E aquele que dá pernas também aos seus vícios as adquirem – como diz o povo a propósito dos doentes. E é porque Zaratustra não há-de aprender com o povo – se o povo aprende com Zaratustra?”
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“E quem não quer morrer de sede entre os homens deve aprender a beber em todos os copos; e quem quer permanecer puro entre os homens deve aprender também a lavar-se em água suja”
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“Tudo o que é direito mente” – murmurou um anão, com um tom de desprezo. “Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo”
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“Desejar, para mim, é já ter-me perdido”
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“Passo no meio deste povo e olho com os olhos bem abertos: não me perdoam não invejar as suas virtudes”
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“Os homens das meias medidas estragam o que é inteiro”
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“Não roubarás! Não matarás” – outrora tinham-se estas palavras como sagradas; diante delas dobrava-se o joelho, inclinava-se a cabeça e tiravam-se as sandálias
Mas pergunto-me: onde é que houve no mundo melhores ladrões e melhores assassinos do que estas palavras?
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A própria vida não contém em si o roubo e o assassínio? E a santificar estas palavras, não se matou a própria verdade?
Ou não seria pregar a morte santificar tudo o que contradizia e desencorajava a vida? Ó meus irmãos, quebrai, quebrai-me essas velhas tábuas!”
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Por que é que escolhemos caminhos! São todos iguais!”
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“Querer liberta: porque querer é criar: é isto o que eu ensino. E não deveis aprender senão para criar!”
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“Tenho necessidade de leões que riem!”
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“O pior é necessário para o melhor do Além-homem”
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“A dor faz cacarejar galinhas e poetas!”
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Manuel Bandeira - Gazal em louvor de Hafiz
darling, em louvor de Hafiz:
- Poeta de Chirza, teu verso
tuas mágoas e as minhas diz.
Pois no mistério do mundo
também me sinto infeliz.
Falaste: "Amarei constante
aquela que não me quis".
E as filhas de Samarcanda,
cameleiros e sufis
Ainda repetem os cantos
em que choras e sorris.
As bem-amadas ingratas
são pó; tu vives, Hafiz!
Doistoiévski - Memórias do Subsolo
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“Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas a razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não a extração de uma raiz quadrada. Eu, por exemplo, quero viver muito naturalmente, para satisfazer toda a minha capacidade vital, e não apenas a minha capacidade racional, isto é, algo como a vigésima parte da minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer (algo, provavelmente, nunca chegará a saber; embora isto não constitua consolo, por que não expressá-lo?), enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente e, embora minta, continua vivendo. Suspeito, senhores, que me olhais com certa compaixão; repetis que é impossível a um homem culto e desenvolvido, numa palavra, a um homem como será o do futuro, querer conscientemente algo desvantajoso para si; isso é matemático. Estou plenamente de acordo; de fato, é matemático. Mas – pela centésima vez vos repito isto – existe um único caso, sim, apenas um, em que o homem pode intencional e conscientemente desejar para si algo nocivo e estúpido, extremamente estúpido até: ter o direito de desejar para si mesmo algo muito estúpido, sem estar comprometido com a obrigação de desejar apenas o que é inteligente. Isto é de fato estupidíssimo, é um capricho, mas realmente, senhores, talvez para a nossa gente, o mais vantajoso de tudo o quanto existe sobre a terra, sobretudo em certos casos. E, em particular, talvez seja mais vantajoso que todas as vantagens, mesmo no caso de nos trazer um prejuízo evidente e de contradizer as conclusões mais sensatas da nossa razão, a respeito das vantagens; pois, em todo o caso, conserva-nos o principal, o que nos é mais caro para o homem; a vontade pode, naturalmente, se quiser, concordar com a razão, sobretudo se não abusar desse acordo e se ele for usado moderadamente; isto é útil, e muitas vezes, até louvável”
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“penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato”
Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós
A inocência é loucura. Uma fonte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Eistein - Por que a civilização não há de entrar em colapso
Eu sou um otimista.
Afirmo a vida porque, seja qual tenha sido o destino dos sóis e dos universos em dissolução, existe uma coisa que chamamos progresso e evolução no ciclo das espécies humanas, por mais breve que seja sua existência, medida em termos astronômicos.
Sou um otimista apesar da Depressão, da Fome, da Insatisfação e do Renascimento do Militarismo, os Quatro Cavaleiros do Novo Apocalipse que cavalgam na sangrenta trilha da Guerra Mundial.
Sou um otimista apesar da supressão em âmbito mundial, dos direitos humanos, que se seguiu à ambiciosa tentativa de tornar o mundo seguro para a democracia. O que caracteriza época em que vivemos é a batalha do
indivíduo para se afirmar. Homem nenhum consegue encontrar-se com a sua própria alma se não atinge o equilíbrio entre o mesmo e a sociedade que o cerca.
Quando meditamos sobre a nossa vida e nossas esperanças temos, quase invariavelmente, de encarar a descoberta de que quase todas as nossas realizações e empreendimentos estão intimamente entrelaçados com
a existência dos outros. Notamos até que ponto nos parecemos com outros animais que vivem em comunidades coletivas. Os alimentos que comemos são preparados e trazidos à nossa mesa por nossos companheiros. As próprias roupas que usamos são tecidas e costuradas por outros. Mãos alheias constroem os abrigos a que damos o nome de lar ou de local de trabalho.
Nossos conhecimentos e crenças, em sua maior parte, são uma herança. São-nos quase que inteiramente transmitidas pelos outros. Outros vêm criando, há muito tempo, os meios pelos quais a compreensão chega a nossos cérebros. Sem a fala, nossos cofres mentais ficariam totalmente vazios! Sem ela, o nosso horizonte intelectual não iria além do de um elefante ou de um macaco. A linguagem cria a irmandade dos homens. É esse dom, a capacidade de transmitir para os outros idéias e emoções complexas, que diferencia o bípede humano de
seus parentes zoológicos.
Inteiramente abandonado a si próprio, o homem ‚ mais indefeso do que os animais. Tente imaginar um bebê abandonado para crescer absolutamente sozinho, desde que nasce. O primitivismo abismal dessa criatura
escapa à nossa imaginação.
O que significa tudo isso?
Isso demonstra a nossa dependência de nossos semelhantes.
Não importa a grandeza ou a distinção dos dons ou potencialidades de um homem, ele é distinto ou grandioso apenas em referência a seu grupo. Um indivíduo não é significativo enquanto indivíduo e sim como membro de
uma família humana. A sociedade é a força que dirige os seus fins materiais e espirituais do nascimento à morte.
Isso nos dá uma medida pela qual podemos avaliar os méritos de cada homem. Seu valor depende primariamente do grau em que as suas emoções, pensamentos e ações se dirigem para enriquecer a vida de seus semelhantes. Bem e mal não são termos absolutos: aplicados ao valor ou ao caráter de um homem, dependem de sua posição ou de sua atitude no relacionamento com o grupo. É como se os atributos sociais de um homem fossem os únicos fatores sobre os quais repousam a sua posição relativa na escala da humanidade.
No entanto, essa conclusão é errônea.
Ela não é coerente com a história da humanidade. Pois se o indivíduo depende da sociedade, a sociedade, por sua vez‚ é nutrida pelas riquezas de cada alma individual. É evidente que todos os bens materiais, espirituais e morais que recebemos da sociedade que nos cerca vieram a ela a partir de forças individuais,
sempre acumulando, sempre crescendo, ao longo de inúmeras gerações. Toda civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo criativo.
Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou fogo de uma pedra. Alguns indivíduos foram os responsáveis pela idéia de retirar alimentos do solo, plantando-os. Outros indivíduos foram os primeiros a conceber a máquina a vapor ou o filamento da lâmpada que nos ilumina. Só o indivíduo pode pensar e, pensando, criar novos valores para o mundo. Só o indivíduo pode estabelecer
novos padrões morais que mostram o caminho para as gerações vindouras. Sem personalidades decisivas, pensando e criando de forma independente o progresso humano é inconcebível.
A saúde da sociedade depende menos da integridade de cada indivíduo do que dos laços sociais que unem o indivíduo a seu grupo. Mas o indivíduo não pode crescer sem o apoio de uma comunidade cooperativa. As culturas greco-européia e americana floresceram a partir da semente da realização individual. O florescimento cultural da Renascença, em especial, tirou a sua força quase inteiramente do relativo isolamento dos indivíduos.
O que é que isso significa para nós?
Vamos dar uma olhada no tempo em que vivemos. Qual é a do indivíduo?
A população das áreas onde o nosso tipo especial de civilização prevalece, cresceu enormemente. A população da Europa, sozinha, triplicou em um século. Na América, a taxa de crescimento foi ainda mais prodigiosas. Mas o número de lideres independentes, de criadores e pensadores decresceu na proporção
inversa. Há poucos indivíduos, hoje, que se ergam acima da multidão. Os poucos que se destacam devem essa distinção principalmente a uma realização produtiva. No mundo que nos cerca, a organização tomou o lugar da
liderança individual. Isso é particularmente verdade no domínio das realizações técnicas. É verdade, também, num grau espantoso, no domínio das ciências. A falta de grandes individualidades no domínio das artes mostra-
se com dolorosa clareza. A pintura e a música, em especial, degeneraram. A política, também está falida. Não só não existem mais grandes líderes políticos, como também o cidadão individual sofreu um declínio quase universal
em termos de confiabilidade e senso de justiça. E, no entanto, a confiabilidade espiritual e um agudo senso de justiça por parte dos indivíduos, são os dois pilares sobre os quais repousa a estrutura democrática. Sem eles, os sistemas parlamentares não funcionam. Porque o indivíduo perdeu essas duas virtudes cívicas primárias, a democracia e seus sistemas parlamentares estão funcionando mal. Porque o indivíduo perdeu essas duas virtudes cívicas primárias, a democracia e seus parlamentos estão vacilantes em muitos países. Por toda a parte erguem-se as ditaduras e elas são toleradas porque o senso de dignidade e de direitos individuais já não está mais vivo de forma suficientemente vibrante.
Às massas, por toda a parte, falta a capacidade de julgamento político independente. Pode-se levar o povo de qualquer país, no espaço de duas semanas, a um tal graus de ódio e histeria que seus membros individuais
estão prontos para matar ou ser mortos, em armadilhas militares, por qualquer motivo, sem que se leve em conta o seu mérito especial. A propaganda cria o serviço militar compulsório ou a servidão militar compulsória. Na minha opinião, o sintoma mais vergonhoso da falta de dignidade pessoal de que a nosso mundo civilizado sofre hoje é a forma como ele se submete às pressões do serviço militar compulsório de qualquer tipo. Em vista desses fenômenos perturbadores não faltam profetas que proclamam o colapso iminente da civilização ocidental.
Não me alinho com esses pessimistas. Tudo indica o contrário. Acredito num futuro melhor e deixem que resuma rapidamente as razões que tenho para estar convencido disso.
A humanidade está sofrendo não porque tenha deixado de progredir, mas porque progrediu depressa demais.
Atribuo as manifestações atuais de desintegração ao fato de que o crescimento da indústria e do maquinário tornou mais aguda a batalha pela existência a um ponto tal que ela se torna um obstáculo ao livre desenvolvimento do indivíduo. Aos líderes em potencial faz falta o tempo livre de que precisam para crescer. O
desenvolvimento das máquinas deveria ter produzido o efeito oposto. Deveria ter diminuído a exigência de que o indivíduo trabalhe mais para atender à demanda da comunidade. Mas o mundo não se adaptou a essas mudanças como resultado, o desemprego e a inquietação social espreitam por toda parte, num mundo instável. A humanidade está começando a se dar com de que uma de suas tarefas mais urgentes é a reorganização do trabalho.
Assim que tivermos realizado essa redistribuição, poderemos reajustar as nossas vidas garantindo a cada indivíduo segurança material e lazer. Reavivadas por um novo senso de segurança e de liberdade, as energias que agora estão sendo reprimidas serão liberadas nas almas dos indivíduos. Seremos uma vez mais capazes de desenvolver grandes personalidades, capazes de enriquecer a nossa vida cultural. Extraindo uma força nova das individualidades, a humanidade há de readquirir o seu equilíbrio espiritual e sua saúde espiritual. A própria
intensidade de nossos distúrbios indica a determinação com que tanto indivíduo quanto o organismo social querem se ver livres desse sofrimento.
Os historiadores futuros hão de compreender a crise que se apossado mundo de hoje como um sintoma de uma doença social provocada apenas pelo ritmo rápido de mais de nossa civilização. A humanidade, curando-se
dessa doença infantil, há de conseguir ir para a frente e para cima na consecussão de seus objetivos.
*O físico alemão Albert Einstein, formulador da teoria da relatividade, escreveu este artigo em 1933 para a Liberty Magazine/HP Singer Features, três anos depois de sua transferência para ao Estados Unidos.
O Estado de São Paulo, 29 de junho de 1997, D12.
O caminho de Swann - Prost
Dostoievski - Recordações da Casa dos Mortos
Drummond - o sentimento do mundo
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista
da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por
serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os
Homens presentes,
A vida presente.
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A infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada, cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre as mangueiras
Lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
Café bom.
Minha mãe ficava sentada, cosendo
Olhando pra mim:
- Psiu...o acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
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O sobrevivente
Impossível compor um poema e essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja
– de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome que ninguém lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas
para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor faz-se pelo sem-fio
Não precisa de estômago para a digestão.
Um sábio declarou a O jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoraram
E matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(desconfio que escrevi um poema)
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Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
É isso que você está vendo:
Hoje beija, amanhã não beija,
Depois de amanhã é domingo
E segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir
Ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
As bodas que ninguém sabe
Quando virão,
Se é que virão.
O amor, Carlos, você é telúrico,
A noite passou em você,
E os recalques se sublimando,
Lá dentro um barulho inefável,
Rezas,
Vitrolas,
Santos que se persignam,
Anúncios do melhor sabão,
Barulho que ninguém sabe
De quê, praquê.
Entretanto você caminha
Melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
Que ninguém ouviu no teatro
E as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
É sempre triste, meu filho, Carlos,
Mas não diga nada a ninguém,
Ninguém sabe nem saberá.
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Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo,
Mas estou cheio de escravos,
Minhas lembranças escorrem
E o corpo transige
Na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
Estará morto e saqueado,
Eu mesmo estarei morto,
Morto meu desejo, morto
O pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
Que havia uma guerra
E era necessário
Trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
Anterior a fronteiras,
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desafiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse entardecer
Mais noite que a noite.
---
Congresso internacional do medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Não cantaremos o ódio porque esse não existe,
Existe apenas o medo, nosso pai e nosso
Companheiro
O medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
O medo dos soldados, o medo das mães, o medo das
Igrejas,
Cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
Cantaremos o medo da morte e o medo de depois
da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas
e medrosas.
---
Ode ao cinqüentenário do poeta brasileiro
(...)É difícil explicar
esse sofrimento seco,
sem qualquer lágrima de amor,
sentimento de homens juntos,
que se comunicam sem gesto
e sem palavras se invadem,
se aproximam, se compreendem
e se calam sem orgulho. (...)
---
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu
deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor se resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, o que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
E ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
Edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
Preferiram (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Joyce - Retrato do artista quando jovem II
Joyce - Retrato do artista quando jovem
Ricardo Reis
Sô todo em cada coisa. Põe o quanto és no mínimo que fazes
Assim em cada lagoa a lua toda
Brilha, porque alta vive"
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