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sábado, julho 07, 2012

Georges Perec, As Coisas


Assim viviam, eles e seus amigos, em seus pequenos apartamentos abarrotados e simpáticos, com seus passeios e seus filmes, seus grandes jantares fraternos, seus projetos maravilhosos. Não eram infelizes. Alguns prazeres de viver, furtivos, evanescentes, iluminavam seus dias. Certas noites, depois de jantar, hesitavam em se levantar da mesa; terminavam uma garrafa de vinho, beliscavam nozes, acendiam cigarros. Certas madrugada, não conseguiam dormir e, meio sentados, recostados contra os travesseiros, um cinzeiro entre eles, conversavam até de manhã. Certos dias, passeavam batendo papo horas inteiras. Olhavam-se, sorrindo, nos espelhos das vitrines. Parecia-lhes que tudo era perfeito: andavam livremente, seus gestos eram soltos, o tempo já não dava a impressão de atingi-los. Bastava estar ali, na rua, num dia de frio seco, de muito vento, bem agasalhados, no cair da tarde, se dirigindo sem pressa, mas em bom passo, a uma casa amiga, para que o menor de seus gestos – acender um cigarro, comprar um saquinho de castanhas assadas, se esgueirar no tumulto de uma saída de estação de trem – lhes parecesse a expressão evidente e imediata de uma felicidade inesgotável.

Ou então, certas noites de verão, andavam longamente por bairros quase desconhecidos. Uma lua perfeitamente redonda brilhava alta no céu e projetava sobre todas as coisas uma luz mortiça. As ruas, desertas e compridas, largas, sonoras, ressoavam sob seus passos sincrônicos. Raros táxis passavam devagar, quase sem ruído. Então se sentiam os donos do mundo. Sentiam uma exaltação desconhecida, como se fossem detentores de segredos fabulosos, de forças inexprimíveis. E, de mãos dadas, começavam a correr, ou jogavam amarelinha, ou corriam pelas calçadas fingindo mancar e berravam em uníssono as grandes árias de Cosi fan tutte ou da Missa em si.

Ou então empurravam a porta de um pequeno restaurante e, com alegria quase ritual, se deixavam penetrar pelo calor ambiente, pelos estalidos dos garfos, o tilintar dos copos, o barulho abafado das vozes, as promessas de toalhas brancas. Escolhiam o vinho compungidos, abriam o guardanapo, e então, bem aquecidos, a sós, fumando um cigarro que, mal iniciado, iriam esmagar um instante depois, quando chegassem as entradas, parecia-lhes que sua vida não seria mais que a inesgotável soma destes momentos propícios e que sempre seriam felizes, porque mereciam sê-los, porque sabiam permanecer disponíveis, porque a felicidade estava dentro deles. Achavam-se sentados um defronte do outro, iam comer depois de ter sentido fome, e todas essas coisas – a toalha branca de algodão grosso, a mancha azul de um maço de Gitanes, os pratos de louça, os talheres meio pesados, os copos de pé, a cesta de palha cheia de pães frescos – compunham o quadro sempre novo de um prazer quase visceral, no limite do entorpecimento a impressão, quase exatamente contrária e quase exatamente semelhante àquela que proporciona a velocidade, de uma formidável estabilidade, de uma formidável  plenitude. A partir dessa mesa servida, tinham a impressão de uma sincronia perfeita: estavam em uníssono com o mundo, ali se banhavam, ali se sentiam à vontade, nada tinham a temer.

Talvez soubessem, um pouco mais que os outros, decifrar ou mesmo provocar esses sinais favoráveis. Seus ouvidos, seus dedos, seus paladares, como se tivessem estado constantemente à espreita, só esperavam esses instantes propícios, que um nada bastava para desencadear. Mas nesses momentos em que se deixavam levar por uma sensação de calma tranquila, de eternidade, que nenhuma tensão vinha perturbar, em que tudo estava equilibrado, era deliciosamente lento, a força dessas alegrias exaltava tudo o que nelas havia de efêmero e frágil. Não se precisava de muita coisa para que tudo desmoronasse: a menor nota em falso, um simples momento de hesitação, um sinal um pouco grosseiro, e a felicidade deles se rompia, voltava a ser o que nunca deixara de ser, uma espécie de contrato, alguma coisa que tinham comprado, alguma coisa frágil e lamentável, um simples instante de trégua que os reconduzia com violência ao que havia de mais perigoso, de mais incerto em sua existência, em sua história.

The exchange of life for life


In the days when our grandparents died at home, we knew what death looked like. Now granddad is whisked away the moment his breathing slows. You never have to see how the story ends (and so, in some ways, it never ends).

When we butchered animals with our own hands we understood the exchange of life for life, and tried to reduce the suffering (if only ti ease our own conscience). But modern agribusiness has taken all the mess off our hands. Now we can keep the show – sows that aren’t allowed to stand, chickends bred to grow so fast they verge on structural colapse, the final elimination of every trait that is not conveniente or profitable – safely out of sight.

When pollution poured from the smokestack of the plant on the edge o four town, we knew the tradeoffs “progress” demanded. Now organized crime trucks off CFCs across the borders, and the seeds of massive genetic pollution are sown in labs in anonymous buildings in tree-lined neighborhoods.

Sinister space is the darkness that defines the light. Once sinister space is out of view, that’s when real evil marshals its troops. When there is no on and nothing but the Earth itself to bear witness.

Adbusters, junho 2001

sábado, junho 23, 2012

Inominável


O iniminável deve permanecer sem nome
José Arbex Jr
Revista Libertárias, n 5 dezembro de 1999


Em uma das passagens mais conhecidas de “Romeu e Julieta”, e também um dos trechos mais belos da literatura universal de todos os tempos, Julieta diz para Romeu (a tradução é minha e adaptada à forma de prosa para este texto):

“Somente o teu nome é meu inimigo; você é você, você não é um Montechi: o que é  Montechi? Não é mão, nem pé, nem braço, nem qualquer outra parte do corpo de um homem. Seja, então, qualquer outro nome! O que há em um nome?

Aquilo que chamamos rosa, exalaria o mesmo doce aroma caso tivesse outro nome. Assim também aconteceria com Romeu: se ele não se chamasse Romeu, inda assim seria o querido ser perfeito que é. Romeu, esqueça o teu nome, e em troca desse nome que não faz parte do teu ser, serei toda sua.”

O que há, pois, em um nome?
Julieta, apesar de sua extrema formosura e delicadeza, e apesar da mágica produzida pela paixão, Julieta – hoje se sabe – estava errada. Será que ela se apaixonaria tão intensamente por Romeu, se não fosse ele parede uma família rival dos Capuleto? Claro que nada se pode afirmar a esse respeito, mas se pode dizer, com certeza, que os encontros furtivos, a clandestinidade da relação, o desafio às instituições de sangue (vários historiadores dizem que o romance entre os dois marcou, simbolicamente, o início da história do Estado-nação em oposição às monarquias absolutas), a sublimação do ato amoroso – tudo contribuía para intensificar ao máximo a paixão impossível. E no princípio era o nome. O nome da rosa...

A rosa mudaria o seu perfume, caso mudasse seu nome? Julieta diz que não.

Mas, depois de Saussure, Strauss, Freud e Lacan, todas as teorias linguísticas, psicanalíticas e antropológicas  desafiam o senso comum e dizem que sim (pobre Julieta! Nunca foi minha intenção esmagar o seu maravilhoso lirismo sob o peso desses monstros sagrados! Digamos, então, que poeticamente ela está totalmente certa, mas...) De nada adiantaria Romeu, em um gesto voluntarista e arbitrário, mudar o seu nome – isso seria apenas uma farsa inócua. Romeu era um Montechi, e isso estava gravado em sua alma como ferro em brasa. O próprio desfecho da história o demonstra: o nome era o destino.

Os sentidos humanos (olfato, tato, paladar, visão, audição) são organizados e condicionados pela linguagem. Só percebemos aquilo a que podemos dar um nome. Basta considerar o famoso exemplo do esquimó: como decorrência de sua luta contra o meio hostil e pela sua sobrevivência, ele nomeia e enxerga dezoito tonalidades da cor branca (um branco mais ou menos intenso pode, por exemplo, indicar a maior ou menor espessura de um caminho de gelo), ali onde o comum dos mortais de nossa cultura enxergará apenas um único e monótono deserto de uma só cor. Se um deles tivesse sido criado na São João com a Ipiranga, com certeza seria portador da mesma “deficiência” que qualquer um de nós. O seguinte trecho é bastante simples e revelador:

“...Pessoas de culturas diferentes não apenas falam línguas diversas mas, o que é talvez mais importante, habitam em diferentes mundos sensoriais. O peneiramento seletivo dos dados sensoriais admite algumas coisas, enquanto elimina outras, a tal ponto que a experiência, como percebida através de uma série de filtros sensoriais , culturalmente padronizados, é bastante diferente daquela percebida através de outros. O meio ambiente arquitetônico e urbano que as pessoas criam são expressões deste processo de filtragem-peneiramento. Na verdade, através destes meios ambientes alterados pelo homem, é possível descobrir como povos diferentes usam seus sentidos.”

As culturas, os idiomas, os nomes que se dão às coisas organizam o modo e a forma de percepção destas mesmas coisas. Só para esclarecer um pouco mais a questão:  desde criança, somos educados a aceitar que quando juntamos as letras r-o-s-a, produzimos uma referencia a algo tão belo, delicado, expressão de determinado tipo de sentimento. Isso faz parte de nosso léxico e de nossa gramatica pessoal, está para sempre escrito em nosso consciente e inconsciente. Não foi por acaso, não foi totalmente arbitrária a “escolha” das letras r-o-s-a para designar “rosa”. Isso foi o resultado de monumentais transformações culturais que constituem a história das nações.. Assim, mudar o nome da rosa, digamos, para xyz seria, em primeiro lugar, impossível – os nomes não se sedimentam no imaginário e nos idiomas por “decisão” de ninguém, mas segunda processos complexos. E, segundo, “x-y-z” não seria equivalente a “r-o-s-a”, porque a sociedade e a cultura que aboliram “r-o-s-a” para criar “x-y-z” seriam fundamentalmente distintas da sociedade e da cultura que criaram “r-o-s-a” .

No livro “Em busca do tempo perdido”, Marcel Proust mostra como a sonoridade dos nomes das cidades que ele visitava na infância evocam lembranças e sentimentos inconscientes que moldavam e prefiguravam os seus sentimentos e relações afetivas que ele mantinha com essas cidades. Se mudassem os seus nomes, eles não mais evocariam os mesmos sentimentos. As cidades seriam, nesse caso, completamente diferentes, comporiam uma outra sinfonia.

Muito bem: e daí? O que isso tudo tem a ver com o inominável? Tem tudo a ver. Inominável é aquilo para o qual as culturas, as nações, os homens em sua atividade prática não têm nome, é aquilo que não conseguem nomear. É, portanto, aquilo que escapa à esfera da cultura, é o que está aquém ou além das possibilidades de nomeação. Um exemplo bem conhecido é o dos pais que perdem seus filhos. Há o órfão, o viúvo, a viúva – mas não se nomeia, pelo menos no idioma português e na maioria dos idiomas ocidentais -, os pais que perdem o filho. Trata-se de uma espécie de revolta da consciência contra um fato que desafia o rumo natural das coisas. É o absurdo, o inaceitável. O que mais é inominável em nossa cultura? Vou limitar-me aqui, a falar do inominável provocado pelo próprio homem, por razões de ordem política, econômica, social e religiosa. Abstenho-me, pois, de discutir o inominável no sentido daquilo que é “misterioso”,  “enigmático”, “inexplicável”.

Pistoleiros que, com a conivência dos governos, praticam tiro tendo como alvo crianças de oito anos, filhos de lideranças locais do MST, como aconteceu, em março , no Estado do Paraná (v. Revista Caros Amigos, jun 99) – isso é inominável. Não se trata simplesmente, de mais um crime, é uma atitude em si mesma impensável. A situação das centenas de milhares de presos que abarrotam os cárceres brasileiros, expostos a todo tipo de vilezas e torturas físicas e psicológicas, ao contágio da AIDS, ao arbítrio de delegados e carcereiros – não se trata de uma “tragédia”, de um “absurdo” – ela é inominável. A maneira pela qual a nação tratou dez milhões de nordestinos que foram vítimas de uma seca politicamente provocada pelos coronéis contemporâneos, em 1998 – isso é inominável.

Qual adjetivo poderia se usar em cada uma dessas situações. A palavra é impotente, fracassa, não consegue traduzir a dimensão do ocorrido. E o perigo maior é o seguinte: quando se tenta nomear o inominável, pode-se criar a ilusão de que o inominável cabe no domínio da linguagem, até que ele, finalmente, caiba mesmo. Ele passa, então, a ser aceito como uma realidade do discurso; daí para a sua banalização como algo  “comum”, “normal”, “natural” , é um pequeno passo.

É isso o que acontece, por exemplo, com a palavra “holocausto” para designar o morticínio de judeus vítimas de Hitler. “Holocausto” tinha, no início, uma conotação muito precisa. A palavra atribuía ao morticínio a dimensão de um ritual: eram vítimas oferecidas a Deus – pois só por serem judeus, isto é, somente como decorrência de sua fé eles foram sacrificados. “Holocausto” deveria, pois, preservar o significado único, absurdamente trágico, sagrado daquele evento. Mas a palavra já foi tantas vezes usada, e aplicada a tantos eventos de natureza distinta – por exemplo a chacina dos negros do Congo pelo rei Leopoldo da Bélgica, no século XIX, a dos armênios pelos turcos, em 1915, ou mesmo a dos milhões de “dissidentes” e “suspeitos” nos campos de concentração de Josef Stalin, entre os anos 20 e 40 - , que já não guarda quase nada de sua força original.

O inominável deve permanecer sem nome. Não significa, obviamente, ignorá-lo, deixar de denunciá-lo ou de apontar os responsáveis. É exatamente o contrário. O inominável não pode ser banalizado ou vulgarizado, mencionado como um fato a mais. Não é. Ele é um limite da linguagem e, portanto, um limite da ação humana. Pouca gente se dá conta disso, mas o holocausto perpetrado por Hitler, algo impensável antes dele, tornou possível outros holocaustos. A melhor forma de ocultar o inominável é dar-lhe um nome. Cada vez que o inominável conquista um nome, isso rebaixa um pouco mais a condição humana.

O inominável deve permanecer sem nome, para que ele jamais seja absorvido pela cultura, tolerado pelo pensamento. Ele deve continuar ocupando sua posição de fantasma, de lugar do horror, o gesto que jamais deve se consumar, o ato para sempre condenado à infâmia.

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