O iniminável deve permanecer sem nome
José Arbex Jr
Revista Libertárias, n 5 dezembro de 1999
Em uma das passagens mais conhecidas de
“Romeu e Julieta”, e também um dos trechos mais belos da literatura universal
de todos os tempos, Julieta diz para Romeu (a tradução é minha e adaptada à
forma de prosa para este texto):
“Somente
o teu nome é meu inimigo; você é você, você não é um Montechi: o que é Montechi? Não é mão, nem pé, nem braço, nem
qualquer outra parte do corpo de um homem. Seja, então, qualquer outro nome! O
que há em um nome?
Aquilo
que chamamos rosa, exalaria o mesmo doce aroma caso tivesse outro nome. Assim
também aconteceria com Romeu: se ele não se chamasse Romeu, inda assim seria o
querido ser perfeito que é. Romeu, esqueça o teu nome, e em troca desse nome
que não faz parte do teu ser, serei toda sua.”
O que há, pois, em um nome?
Julieta, apesar de sua extrema formosura e
delicadeza, e apesar da mágica produzida pela paixão, Julieta – hoje se sabe –
estava errada. Será que ela se apaixonaria tão intensamente por Romeu, se não
fosse ele parede uma família rival dos Capuleto? Claro que nada se pode afirmar
a esse respeito, mas se pode dizer, com certeza, que os encontros furtivos, a
clandestinidade da relação, o desafio às instituições de sangue (vários
historiadores dizem que o romance entre os dois marcou, simbolicamente, o
início da história do Estado-nação em oposição às monarquias absolutas), a
sublimação do ato amoroso – tudo contribuía para intensificar ao máximo a
paixão impossível. E no princípio era o nome. O nome da rosa...
A rosa mudaria o seu perfume, caso mudasse
seu nome? Julieta diz que não.
Mas, depois de Saussure, Strauss, Freud e
Lacan, todas as teorias linguísticas, psicanalíticas e antropológicas desafiam o senso comum e dizem que sim (pobre
Julieta! Nunca foi minha intenção esmagar o seu maravilhoso lirismo sob o peso
desses monstros sagrados! Digamos, então, que poeticamente ela está totalmente
certa, mas...) De nada adiantaria Romeu, em um gesto voluntarista e arbitrário,
mudar o seu nome – isso seria apenas uma farsa inócua. Romeu era um Montechi, e
isso estava gravado em sua alma como ferro em brasa. O próprio desfecho da
história o demonstra: o nome era o destino.
Os sentidos humanos (olfato, tato, paladar,
visão, audição) são organizados e condicionados pela linguagem. Só percebemos
aquilo a que podemos dar um nome. Basta considerar o famoso exemplo do esquimó:
como decorrência de sua luta contra o meio hostil e pela sua sobrevivência, ele
nomeia e enxerga dezoito tonalidades da cor branca (um branco mais ou menos
intenso pode, por exemplo, indicar a maior ou menor espessura de um caminho de
gelo), ali onde o comum dos mortais de nossa cultura enxergará apenas um único
e monótono deserto de uma só cor. Se um deles tivesse sido criado na São João
com a Ipiranga, com certeza seria portador da mesma “deficiência” que qualquer
um de nós. O seguinte trecho é bastante simples e revelador:
“...Pessoas de culturas diferentes não
apenas falam línguas diversas mas, o que é talvez mais importante, habitam em
diferentes mundos sensoriais. O peneiramento seletivo dos dados sensoriais
admite algumas coisas, enquanto elimina outras, a tal ponto que a experiência,
como percebida através de uma série de filtros sensoriais , culturalmente
padronizados, é bastante diferente daquela percebida através de outros. O meio
ambiente arquitetônico e urbano que as pessoas criam são expressões deste
processo de filtragem-peneiramento. Na verdade, através destes meios ambientes
alterados pelo homem, é possível descobrir como povos diferentes usam seus
sentidos.”
As culturas, os idiomas, os nomes que se
dão às coisas organizam o modo e a forma de percepção destas mesmas coisas. Só
para esclarecer um pouco mais a questão:
desde criança, somos educados a aceitar que quando juntamos as letras
r-o-s-a, produzimos uma referencia a algo tão belo, delicado, expressão de
determinado tipo de sentimento. Isso faz parte de nosso léxico e de nossa
gramatica pessoal, está para sempre escrito em nosso consciente e inconsciente.
Não foi por acaso, não foi totalmente arbitrária a “escolha” das letras r-o-s-a
para designar “rosa”. Isso foi o resultado de monumentais transformações
culturais que constituem a história das nações.. Assim, mudar o nome da rosa, digamos,
para xyz seria, em primeiro lugar, impossível – os nomes não se sedimentam no
imaginário e nos idiomas por “decisão” de ninguém, mas segunda processos
complexos. E, segundo, “x-y-z” não seria equivalente a “r-o-s-a”, porque a
sociedade e a cultura que aboliram “r-o-s-a” para criar “x-y-z” seriam
fundamentalmente distintas da sociedade e da cultura que criaram “r-o-s-a” .
No livro “Em busca do tempo perdido”,
Marcel Proust mostra como a sonoridade dos nomes das cidades que ele visitava
na infância evocam lembranças e sentimentos inconscientes que moldavam e
prefiguravam os seus sentimentos e relações afetivas que ele mantinha com essas
cidades. Se mudassem os seus nomes, eles não mais evocariam os mesmos
sentimentos. As cidades seriam, nesse caso, completamente diferentes, comporiam
uma outra sinfonia.
Muito bem: e daí? O que isso tudo tem a ver
com o inominável? Tem tudo a ver. Inominável é aquilo para o qual as culturas,
as nações, os homens em sua atividade prática não têm nome, é aquilo que não conseguem
nomear. É, portanto, aquilo que escapa à esfera da cultura, é o que está aquém
ou além das possibilidades de nomeação. Um exemplo bem conhecido é o dos pais
que perdem seus filhos. Há o órfão, o viúvo, a viúva – mas não se nomeia, pelo
menos no idioma português e na maioria dos idiomas ocidentais -, os pais que
perdem o filho. Trata-se de uma espécie de revolta da consciência contra um
fato que desafia o rumo natural das coisas. É o absurdo, o inaceitável. O que mais é inominável em nossa cultura? Vou limitar-me aqui, a falar do inominável
provocado pelo próprio homem, por razões de ordem política, econômica, social e
religiosa. Abstenho-me, pois, de discutir o inominável no sentido daquilo que é
“misterioso”, “enigmático”,
“inexplicável”.
Pistoleiros que, com a conivência dos
governos, praticam tiro tendo como alvo crianças de oito anos, filhos de
lideranças locais do MST, como aconteceu, em março , no Estado do Paraná (v.
Revista Caros Amigos, jun 99) – isso é inominável. Não se trata simplesmente,
de mais um crime, é uma atitude em si mesma impensável. A situação das centenas
de milhares de presos que abarrotam os cárceres brasileiros, expostos a todo
tipo de vilezas e torturas físicas e psicológicas, ao contágio da AIDS, ao
arbítrio de delegados e carcereiros – não se trata de uma “tragédia”, de um
“absurdo” – ela é inominável. A maneira pela qual a nação tratou dez milhões de
nordestinos que foram vítimas de uma seca politicamente provocada pelos
coronéis contemporâneos, em 1998 – isso é inominável.
Qual adjetivo poderia se usar em cada uma
dessas situações. A palavra é impotente, fracassa, não consegue traduzir a
dimensão do ocorrido. E o perigo maior é o seguinte: quando se tenta nomear o
inominável, pode-se criar a ilusão de que o inominável cabe no domínio da
linguagem, até que ele, finalmente, caiba mesmo. Ele passa, então, a ser aceito
como uma realidade do discurso; daí para a sua banalização como algo “comum”, “normal”, “natural” , é um pequeno
passo.
É isso o que acontece, por exemplo, com a
palavra “holocausto” para designar o morticínio de judeus vítimas de Hitler.
“Holocausto” tinha, no início, uma conotação muito precisa. A palavra atribuía
ao morticínio a dimensão de um ritual: eram vítimas oferecidas a Deus – pois só
por serem judeus, isto é, somente como decorrência de sua fé eles foram
sacrificados. “Holocausto” deveria, pois, preservar o significado único,
absurdamente trágico, sagrado daquele evento. Mas a palavra já foi tantas vezes
usada, e aplicada a tantos eventos de natureza distinta – por exemplo a chacina
dos negros do Congo pelo rei Leopoldo da Bélgica, no século XIX, a dos armênios
pelos turcos, em 1915, ou mesmo a dos milhões de “dissidentes” e “suspeitos”
nos campos de concentração de Josef Stalin, entre os anos 20 e 40 - , que já
não guarda quase nada de sua força original.
O inominável deve permanecer sem nome. Não
significa, obviamente, ignorá-lo, deixar de denunciá-lo ou de apontar os
responsáveis. É exatamente o contrário. O inominável não pode ser banalizado ou
vulgarizado, mencionado como um fato a mais. Não é. Ele é um limite da
linguagem e, portanto, um limite da ação humana. Pouca gente se dá conta disso,
mas o holocausto perpetrado por Hitler, algo impensável antes dele, tornou
possível outros holocaustos. A melhor forma de ocultar o inominável é dar-lhe
um nome. Cada vez que o inominável conquista um nome, isso rebaixa um pouco
mais a condição humana.
O inominável deve permanecer sem nome, para
que ele jamais seja absorvido pela cultura, tolerado pelo pensamento. Ele deve
continuar ocupando sua posição de fantasma, de lugar do horror, o gesto que
jamais deve se consumar, o ato para sempre condenado à infâmia.

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