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sábado, maio 02, 2009

Clarice Lispector - A maçã no escuro

"Salvação? Seu coração então bateu com força como se os limites tivessem caído. Pois, quem sabe, talvez fosse esta a grande barganha que ele poderia fazer - a salvação. Tudo então que em Martim era individual cessou. Ele só queria agora se agregar aos salvos e pertencer - o medo levara-o a isso. À salvação. E com o coração ferido de surpresa e alegria, pareceu-lhe por um instante que acabara de encontrar a palavra. Seria à procura dessa palavra que ele saíra de casa? Ou de novo seriam apenas os restos de uma palavra antiga? Salvação - que palavra estranha e inventada, e o escuro o rodeava.

Salvação? Ele se espantou. E se fosse esta a palavra - seria então assim que ela acontecia? Então tivera ele que viver tudo o que vivera para experimentar o que poderia ter sido dito numa só palavra? se essa palavra pudesse ser dita, e ele ainda não a dissera. Andara ele o mundo inteiro, somente porque era mais difícil dar um só e único passo? se esse passo pudesse jamais ser dado!

O absurdo envolveu o homem, lógico, magnificente, horrível, perfeito - o escuro o envolveu. No entanto, por pouco que entendesse, ele pareceu sentir a perfeição que houvera no seu caminho obscuro até chegar ao bosque: havia nos seus passos uma perfeição impessoal, e era como se o tempo de uma vida tivesse sido rigorosamente calculado para a maturação de um fruto, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos - se o fruto amadurecesse! Porque o medo pareceu-lhe estabelecer uma harmonia, a harmonia terrificante - digo-te, deus, eu te compreendo! - e ele de novo acabara de cair na armadilha da harmonia como se às cegas e por caminhos tortos tivesse executado em pura obediência um círculo fatal perfeito - até encontrar-se de novo, como agora se encontrava, e no mesmo ponto de partida que era o próprio ponto final. E se esse caminho apenas circular acabara de tornar inúteis todos os passos que ele dera, no fundo mesmo de seu medo o homem de repente pareceu concordar com esse caminho, com dor e com medo pareceu admitir que sua natureza desconhecida jamais fosse mais poderosa que sua liberdade. Pois de que me valeu a liberdade, gritou-se ele. Não fizera nada dela...

De que lhe valera a liberdade profunda mas sem poder. Ele tinha tentado inventar um novo modo de ver ou entender ou de organizar, e tinha querido que esse modo fosse tão perfeito quanto o da realidade. Mas o que experimentara fora apenas a liberdade de um cão sem dentes. A liberdade de ir em busca da promessa que o rodeava - pensou o homem tremendo. E tão vasta era a promessa que, se a pessoa a perdia de vista por um segundo, então se perdia de si própria num mundo vazio e completo que não parece precisar de um homem a mais. Perdia-se até que exaustivamente, e nascida do nada, se erguesse a esperança. Então quem gritasse mais alto ou ganisse mais melodioso seria o rei dos cães. Ou quem se ajoelhasse mais profundamente - pois ajoelhar-se ainda era um modo de instante por instante não perder de vista a promessa. Ou então quem se revoltasse. A sua greve!

A sua greve, que era a única coisa de que até hoje ele podia se orgulhar.

Até que de novo nascesse o desejo de um cão sem dentes? Sim, assim o era. E tudo isso até um dia morrer? Pois se morria. No seu medo o homem viu que morria. E se não fosse a dor - que era a nossa resposta - seria apenas assim: ter-se-ia morrido um dia?

Mas não tão simplesmente! gritou o homem apavorado. Pois no escuro ele pareceu ter a grande intuição de que se morre com a mesma intensa e impalpável energia com que se vive, com a mesma espécie de oferenda que se faz de sim, e com aquele mesmo mudo ardor, e que se morria estranhamente feliz apesar de tudo: submisso à perfeição que nos usa. A essa perfeição que fazia com que, até o último instante da vida, se farejasse com intensidade o mundo seco, se farejasse com alegria e aceitando... Sim, por fatalidade de amor, aceitando, por estranha adequação, aceitando...

Apenas isso? Quase nada! ainda rebelou-se o homem, mas meu deus isso é quase nada,

Não, isso é muito. Porque, por deus, havia muito mais que isso. Para cada homem provavelmente havia um certo momento não-identificável em que teria havido mais que farejar: em que a ilusão fora maior que se teria atingido a íntima veracidade do sonho. Em que as pedras teriam aberto seu coração de pedra e os bichos teriam aberto seu segredo de carne e os homens não teriam sido "os outros", teriam sido "nós", e o mundo teria sido um vislumbre que se reconhece como se tivesse sonhado com ele; para cada homem teria havido aquele momento não-identificável em que se teria aceito mesmo a monstruosa impaciência de deus? Essa impaciência que permitia que homens durante séculos aniquilassem com o mesmo obstinado erro os outros homens. A monstruosa bondade de deus não tem pressa. Aquela sua certeza que fazia com que ele permitisse que o homem assassinasse - porque sabia que um dia esse homem teria medo e nesse instante de medo, enfim capturado, enfim impossibilitado de não encarar o próprio rosto, esse homem diria "sim" àquela harmonia feita de beleza e horror e perfeição e beleza e perfeição e horror: a perfeição que nos usa.

E esse homem, com grande respeito do medo, diria "sim", mesmo sabendo com vergonha que este seria seu maior crime talvez: porque havia uma falta essencial de direito de um homem se agregar à divindade - até que ponto um homem tinha o direito de ser divino e dizer sim? Pelo menos não antes de arrumar os seus negócios! Mas não. Mesmo sem saber como arrumar nossos negócios o homem terminaria cometendo o crime de dizer sim. Pois atingido o nó incompreensível do sonho aceitava-se este grande absurdo: que o mistério é a salvação.

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É preciso saber viver para viver, porque o outro lado, minha senhora, nos espreita a cada passo: um movimento desastrado e de repente um homem que está andando parece um macaco! só um descuido, e em vez de ficar perplexa a gente ri! Um desfalecimento, minha senhora, e amor é perdição. Requer-se arte, minha senhora, muita arte, pois sem ela a vida erra. E muita sagacidade, pois o tempo é curto, há de se escolher numa fração de segundo entre uma palavra e outra, entre lembrar e esquecer, é preciso técnica!"

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