“Com efeito, o resultado direto e legal da consciência é a inércia, isto é, o ato de ficar conscientemente sentado de braços cruzados. Já aludi a isto há pouco. Repito, e repito com insistência: todos os homens diretos e de ação são atrativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as suas causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam; e isto é o fato mais importante. Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranqüilo e não conservar quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranqüilizarei? Onde estão as minhas causas primeiras, em que me apóie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar”.
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“Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas a razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não a extração de uma raiz quadrada. Eu, por exemplo, quero viver muito naturalmente, para satisfazer toda a minha capacidade vital, e não apenas a minha capacidade racional, isto é, algo como a vigésima parte da minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer (algo, provavelmente, nunca chegará a saber; embora isto não constitua consolo, por que não expressá-lo?), enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente e, embora minta, continua vivendo. Suspeito, senhores, que me olhais com certa compaixão; repetis que é impossível a um homem culto e desenvolvido, numa palavra, a um homem como será o do futuro, querer conscientemente algo desvantajoso para si; isso é matemático. Estou plenamente de acordo; de fato, é matemático. Mas – pela centésima vez vos repito isto – existe um único caso, sim, apenas um, em que o homem pode intencional e conscientemente desejar para si algo nocivo e estúpido, extremamente estúpido até: ter o direito de desejar para si mesmo algo muito estúpido, sem estar comprometido com a obrigação de desejar apenas o que é inteligente. Isto é de fato estupidíssimo, é um capricho, mas realmente, senhores, talvez para a nossa gente, o mais vantajoso de tudo o quanto existe sobre a terra, sobretudo em certos casos. E, em particular, talvez seja mais vantajoso que todas as vantagens, mesmo no caso de nos trazer um prejuízo evidente e de contradizer as conclusões mais sensatas da nossa razão, a respeito das vantagens; pois, em todo o caso, conserva-nos o principal, o que nos é mais caro para o homem; a vontade pode, naturalmente, se quiser, concordar com a razão, sobretudo se não abusar desse acordo e se ele for usado moderadamente; isto é útil, e muitas vezes, até louvável”
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“penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato”
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sábado, maio 02, 2009
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