Textos, trechos, artigos e comentários encontrados por aí.

domingo, março 04, 2007

A Train

You must take the A Train
To go to Sugar Hill way up in Harlem
If you miss the A Train
You'll find you've missed the quickest way to Harlem
Hurry, get on, now, it's coming
Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!)
Get on the A Train
Soon you will be on Sugar Hill in Harlem

Whitman

“This is what you shall do: love the earth and the sun the animals, depise the riches, give alms to alks, stand up for stupid and crazy, devote your income and labour to others, hate tyrants, argue not concerning god, have patience and indulgence toward the people, take you hat to nothing known or unknown or to any man or number of men, go freely with powerful uneducated persons and the young and the mother of families, read these leaves in open air every season of every year of your life, re-examine all you have been told at school or church or in any book, dismiss whatever insults in your soul, and your very flesh shall be a great poem and have the richest fluency not only in word but in the silent lines of its lips and face between the lashes of your eyes and in every motion and joint of your body”

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

ToDo revisited

Viver é a única urgência.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Rosa

“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que deus não há. Estremeço. Como não ter deus?! Com deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível , o mundo se resolve. Mas se não tem deus, há-de a gente perdidos no vai e vem, e a vida é burra. É o aberto perigoso das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é contra todos os acasos. Tendo deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem, está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas nem braços. Dor não até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimentos? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é deus, é estado de demônio. deus existe mesmo quando não há. Mas demônio não existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. Inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer o céu é porque quer um fim: mas com um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter igual em meus gostos. O que invejo é a instrução do senhor”

sábado, fevereiro 10, 2007

Desaforismos

Se deus é por nós, quem precisa de inimigos?

Trópico de capricórnio

“A vida corre sem rumo diante da vitrina. Eu estou ali deitado como um presunto iluminado esperando que um machado caia. Na verdade, nada há a temer, porque tudo é cuidadosamente cortado em pequenas fatias e embrulhado em celofane. De repente todas as luzes da cidade apagam-se e as sereias soam seu alarma. A cidade está envolta em gás venenoso, bombas estão estourando, corpos mutilados voam pelo ar. Há eletricidade em tôda parte, assim como sangue, estilhaços e alto-falantes. Os homens no ar estão cheios de alegria; os que se encontra embaixo estão gritando e berrando. Após os gás e as chamas terem comido tôda a carne começa a dança do esqueleto. Eu observo da vitrina que agora está escura. É melhor que o saque de Roma porque há mais coisas a destruir.

Por que os esqueletos dançam com tal êxtase? – pergunto eu. É a queda do mundo? É a dança da morte que com tanta freqüência foi anunciada? É pavoroso ver milhões de esqueletos dançando na neve enquanto a cidade afunda. Alguma coisa voltará a nascer? Crianças sairão do útero? Haverá comida e vinho? Há homens no ar, não há dúvida. Eles descerão para saquear. Haverá cólera e disenteria. Aquêles que estavam em cima e triunfantes perecerão com o resto. Tenho a firme impressão de que serei o último homem sobre a terra. Sairei da vitrina quando tudo estiver acabado e caminharei sobre as ruínas. Terei a terra inteira só pra mim."

Tarde

de tanta raiva aprendeu um gesto novo.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

utilidades da cultura

"(...) a cultura pode fazer você atentar melhor para o que diz, evitando diversos mal-entendidos verbais que geram tanto desperdício de energia no cotidiano de todos. Não soa útil? A cultura pode fazer de você melhor aluno ou professor, não só por complementar a formação curricular (cultura é sempre crédito opcional nas escolas e faculdades), mas sobretudo por ajudar a contestar tal formação e, no processo, até mesmo assimilá-la com menos dificuldade. Há exemplos à mancheia. Dizem ainda que a cultura serve para reforçar a identidade, mas é justamente o contrário: ela serve para perceber nuances entre as identidades, justamente com o objetivo de esgarçar limitações e não cair na rede de ironias históricas. Cultura não é apenas encontro com o país, é também desencontro, desterro, disjunção.

E há a questão existencial, digamos assim. Se nos resta o que Rimbaud resumiu, "preservar o vigor combativo e aclamar a beleza", dado o número de incertezas, frustrações e azares que qualquer pessoa sofre, o que é melhor do que a cultura para nos ensinar isso? Pois cultura é útil num sentido mais indireto, que é o de intensificar a percepção, aguçar a inteligência, ampliar a sua capacidade de associar e antecipar, fazendo de você melhor ser humano, melhor profissional, não mais "feliz" ou "bem-sucedido" - e sim, ao mesmo tempo menos orgulhoso e mais seguro, menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos passivo e mais alerta.

O problema é que a escala de valores vigente - a cultura - induz uma esperança em moto-perpétuo, um otimismo auto-viciador, uma ilusão de satisfação plena, com os outros e objetos, movida a dicotomias baratas, para a qual a própria cultura é antídoto. O resto é cereja."

Falou e disse, Piza, em 08/99

Musil 2

"Na idade em que ainda se levam a sério coisas como alfaiate e barbeiro e se gosta de olhar no espelho, muitas vezes imaginamos em algum lugar onde gostaríamos de passar a vida, ou pelo menos um lugar onde é elegante viver, mesmo sentindo, que, pessoalmente, não seria tão bom estar lá. Uma dessas obsessões é há muito tempo uma espécie de cidade superamericana, onde todo mundo corre ou pára com cronômetro na mão. Céu e terra formam um formigueiro varado pelos diversos andares de ruas sobrepostas. Trens aéreos, trens terrestres, trens subterrâneos, pessoas transportadas por correio pneumático, comboios de automóveis disparam na horizontal, ascensores rápidos bombeiam verticalmente massas humanas de um nível de trânsito a outro; salta-se de um meio locomotor a outro nos pontos de junção, sem pensar, sugado e arrebatado pelo ritmo dos veículos que entre duas corridas trovejantes fazem uma síncope, uma pausa, uma pequena brecha de vinte segundos; trocam-se algumas palavras nos intervalos desse ritmo geral. Perguntas e respostas articulam-se como peças de máquina, cada pessoa tem apenas tarefas bem determinadas, as profissões estão agrupadas em lugares certos, come-se em pleno movimento, as diversões estão reunidas noutras partes da cidade, e em outros locais encontram-se as torres onde ficam esposa, família, gramofone e alma. Tensão e distensão, atividade e amor são absolutamente separadas no tempo, e equilibradas segundo experiências de laboratório. Caso haja alguma dificuldade em qualquer uma dessas ações, simplesmente se larga tudo; pois encontra-se outra coisa, ou eventualmente algum caminho melhor, ou outro encontrará o caminho que nós não achamos; não tem nenhuma importância, uma vez que nada causa tanto desperdício da força comum quanto presumir que se tem missão de não largar determinado objetivo pessoal. Numa comunidade através da qual correm energias, todo caminho leva a um bom objetivo, desde que não se hesite nem se reflita demais. Os objetivos são a curto prazo: mas também a vida é curta, e assim conseguimos arrancar dela o máximo de realização. A pessoa não precisa mais que isso para ser feliz, pois aquilo que se obtém modela a alma, enquanto aquilo que se deseja, sem conseguir, apenas a deforma; para a felicidade importa muito pouco o que se deseja, mas apenas o que seja obtido. Além disso a zoologia ensina que de uma soma de indivíduos reduzidos pode resultar um todo genial. " (in: O Homem sem qualidades)

Adiamento

Perdoe-nos Clarice, se suas palavras servem tão bem às bocas de tantos.

Durante a noite, Marianne acorda gritando de medo. Johan acende a lâmpada da mesa-de-cabeceira e tenta abraçá-la para a tranquilizar, mas ela se liberta a se levanta, começando a andar de uma lado para o outro. Johan espera em silêncio que diga alguma coisa.” Ela o encara, da cabeça aos pés, com terror nos olhos. Ao perceber que M. mantinha-se muda, Johan pergunta:
J:Há algo de errado?
M: Eu o matava.
J (confuso): No seu sonho?
M: É. Pela garganta. Estrangulava. Como se tivesse tal força nas mãos. Você não reagia, apenas me olhava. Não sentia dor, não pedia clemência.
J: Pensei que já tivesse superado isso. O que seu terapeuta falava sobre sonhos? Eles são óbvios!
M: Eu não tinha nenhum sentimento especial, nada relacionado ao passado. Pelo menos, não que me lembre.
J: Então por que acordou assustada?
M: No último instante, no segundo que faltava para calar sua voz, senti, eu, uma estranha dor na cabeça. Ela passou a se alastrar pelo corpo inteiro. Tudo doeu. Logo em seguida passei a ficar amortecida. Meus olhos passaram a ver menos, meus ouvidos pareciam submersos, enquanto minhas mãos...
M. Olha para as mãos, analisando cada um de seus veios, esfregando os dedos uns contra os outros, experimentando-os
J: Suas mãos?
M: Deixa pra lá. Foi apenas um sonho.
J: Você deve estar com fome.
M: Sim, vou comer algo. Você quer?
J: Não, estou com sono. Se não se importa, vou dormir.

Marianne vai até a cozinha. Abre sua bolsa onde estão os alimentos. Nenhum lhe apetece. Encontra seu caderno de anotações. Procura por uma caneta, que encontra dentro do armário da sala. Senta-se no sofá e escreve:

“Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Ma vejo agora que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.

Mas descubro que não é necessário ter esperança. É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é necessária, pois isto deveria vir a se transformar, já que sou fraca, em arma destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.

Eu poderia não entender e tu poderias não entender que prescindir da esperança - na verdade significa ação, e hoje. Não, não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido não porque é ruim, mas porque nós nos arriscamos. (...) Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.”

J acorda e vai até M., abraçando-a: Está tarde, vamos dormir.
M: olha para J., eles se beijam.
J (comovido e confuso): Será que perdemos algo de importante?
M: Isso não importa mais. Vamos dormir.

Eles se deitam, J. Abraça M. Ela pega seu braço, reforçando o movimento.
M: Boa Noite.
J apenas beija seu pescoço.

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