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sábado, fevereiro 10, 2007

Trópico de capricórnio

“A vida corre sem rumo diante da vitrina. Eu estou ali deitado como um presunto iluminado esperando que um machado caia. Na verdade, nada há a temer, porque tudo é cuidadosamente cortado em pequenas fatias e embrulhado em celofane. De repente todas as luzes da cidade apagam-se e as sereias soam seu alarma. A cidade está envolta em gás venenoso, bombas estão estourando, corpos mutilados voam pelo ar. Há eletricidade em tôda parte, assim como sangue, estilhaços e alto-falantes. Os homens no ar estão cheios de alegria; os que se encontra embaixo estão gritando e berrando. Após os gás e as chamas terem comido tôda a carne começa a dança do esqueleto. Eu observo da vitrina que agora está escura. É melhor que o saque de Roma porque há mais coisas a destruir.

Por que os esqueletos dançam com tal êxtase? – pergunto eu. É a queda do mundo? É a dança da morte que com tanta freqüência foi anunciada? É pavoroso ver milhões de esqueletos dançando na neve enquanto a cidade afunda. Alguma coisa voltará a nascer? Crianças sairão do útero? Haverá comida e vinho? Há homens no ar, não há dúvida. Eles descerão para saquear. Haverá cólera e disenteria. Aquêles que estavam em cima e triunfantes perecerão com o resto. Tenho a firme impressão de que serei o último homem sobre a terra. Sairei da vitrina quando tudo estiver acabado e caminharei sobre as ruínas. Terei a terra inteira só pra mim."

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