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sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Musil 2

"Na idade em que ainda se levam a sério coisas como alfaiate e barbeiro e se gosta de olhar no espelho, muitas vezes imaginamos em algum lugar onde gostaríamos de passar a vida, ou pelo menos um lugar onde é elegante viver, mesmo sentindo, que, pessoalmente, não seria tão bom estar lá. Uma dessas obsessões é há muito tempo uma espécie de cidade superamericana, onde todo mundo corre ou pára com cronômetro na mão. Céu e terra formam um formigueiro varado pelos diversos andares de ruas sobrepostas. Trens aéreos, trens terrestres, trens subterrâneos, pessoas transportadas por correio pneumático, comboios de automóveis disparam na horizontal, ascensores rápidos bombeiam verticalmente massas humanas de um nível de trânsito a outro; salta-se de um meio locomotor a outro nos pontos de junção, sem pensar, sugado e arrebatado pelo ritmo dos veículos que entre duas corridas trovejantes fazem uma síncope, uma pausa, uma pequena brecha de vinte segundos; trocam-se algumas palavras nos intervalos desse ritmo geral. Perguntas e respostas articulam-se como peças de máquina, cada pessoa tem apenas tarefas bem determinadas, as profissões estão agrupadas em lugares certos, come-se em pleno movimento, as diversões estão reunidas noutras partes da cidade, e em outros locais encontram-se as torres onde ficam esposa, família, gramofone e alma. Tensão e distensão, atividade e amor são absolutamente separadas no tempo, e equilibradas segundo experiências de laboratório. Caso haja alguma dificuldade em qualquer uma dessas ações, simplesmente se larga tudo; pois encontra-se outra coisa, ou eventualmente algum caminho melhor, ou outro encontrará o caminho que nós não achamos; não tem nenhuma importância, uma vez que nada causa tanto desperdício da força comum quanto presumir que se tem missão de não largar determinado objetivo pessoal. Numa comunidade através da qual correm energias, todo caminho leva a um bom objetivo, desde que não se hesite nem se reflita demais. Os objetivos são a curto prazo: mas também a vida é curta, e assim conseguimos arrancar dela o máximo de realização. A pessoa não precisa mais que isso para ser feliz, pois aquilo que se obtém modela a alma, enquanto aquilo que se deseja, sem conseguir, apenas a deforma; para a felicidade importa muito pouco o que se deseja, mas apenas o que seja obtido. Além disso a zoologia ensina que de uma soma de indivíduos reduzidos pode resultar um todo genial. " (in: O Homem sem qualidades)

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