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sexta-feira, fevereiro 09, 2007

utilidades da cultura

"(...) a cultura pode fazer você atentar melhor para o que diz, evitando diversos mal-entendidos verbais que geram tanto desperdício de energia no cotidiano de todos. Não soa útil? A cultura pode fazer de você melhor aluno ou professor, não só por complementar a formação curricular (cultura é sempre crédito opcional nas escolas e faculdades), mas sobretudo por ajudar a contestar tal formação e, no processo, até mesmo assimilá-la com menos dificuldade. Há exemplos à mancheia. Dizem ainda que a cultura serve para reforçar a identidade, mas é justamente o contrário: ela serve para perceber nuances entre as identidades, justamente com o objetivo de esgarçar limitações e não cair na rede de ironias históricas. Cultura não é apenas encontro com o país, é também desencontro, desterro, disjunção.

E há a questão existencial, digamos assim. Se nos resta o que Rimbaud resumiu, "preservar o vigor combativo e aclamar a beleza", dado o número de incertezas, frustrações e azares que qualquer pessoa sofre, o que é melhor do que a cultura para nos ensinar isso? Pois cultura é útil num sentido mais indireto, que é o de intensificar a percepção, aguçar a inteligência, ampliar a sua capacidade de associar e antecipar, fazendo de você melhor ser humano, melhor profissional, não mais "feliz" ou "bem-sucedido" - e sim, ao mesmo tempo menos orgulhoso e mais seguro, menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos passivo e mais alerta.

O problema é que a escala de valores vigente - a cultura - induz uma esperança em moto-perpétuo, um otimismo auto-viciador, uma ilusão de satisfação plena, com os outros e objetos, movida a dicotomias baratas, para a qual a própria cultura é antídoto. O resto é cereja."

Falou e disse, Piza, em 08/99

Musil 2

"Na idade em que ainda se levam a sério coisas como alfaiate e barbeiro e se gosta de olhar no espelho, muitas vezes imaginamos em algum lugar onde gostaríamos de passar a vida, ou pelo menos um lugar onde é elegante viver, mesmo sentindo, que, pessoalmente, não seria tão bom estar lá. Uma dessas obsessões é há muito tempo uma espécie de cidade superamericana, onde todo mundo corre ou pára com cronômetro na mão. Céu e terra formam um formigueiro varado pelos diversos andares de ruas sobrepostas. Trens aéreos, trens terrestres, trens subterrâneos, pessoas transportadas por correio pneumático, comboios de automóveis disparam na horizontal, ascensores rápidos bombeiam verticalmente massas humanas de um nível de trânsito a outro; salta-se de um meio locomotor a outro nos pontos de junção, sem pensar, sugado e arrebatado pelo ritmo dos veículos que entre duas corridas trovejantes fazem uma síncope, uma pausa, uma pequena brecha de vinte segundos; trocam-se algumas palavras nos intervalos desse ritmo geral. Perguntas e respostas articulam-se como peças de máquina, cada pessoa tem apenas tarefas bem determinadas, as profissões estão agrupadas em lugares certos, come-se em pleno movimento, as diversões estão reunidas noutras partes da cidade, e em outros locais encontram-se as torres onde ficam esposa, família, gramofone e alma. Tensão e distensão, atividade e amor são absolutamente separadas no tempo, e equilibradas segundo experiências de laboratório. Caso haja alguma dificuldade em qualquer uma dessas ações, simplesmente se larga tudo; pois encontra-se outra coisa, ou eventualmente algum caminho melhor, ou outro encontrará o caminho que nós não achamos; não tem nenhuma importância, uma vez que nada causa tanto desperdício da força comum quanto presumir que se tem missão de não largar determinado objetivo pessoal. Numa comunidade através da qual correm energias, todo caminho leva a um bom objetivo, desde que não se hesite nem se reflita demais. Os objetivos são a curto prazo: mas também a vida é curta, e assim conseguimos arrancar dela o máximo de realização. A pessoa não precisa mais que isso para ser feliz, pois aquilo que se obtém modela a alma, enquanto aquilo que se deseja, sem conseguir, apenas a deforma; para a felicidade importa muito pouco o que se deseja, mas apenas o que seja obtido. Além disso a zoologia ensina que de uma soma de indivíduos reduzidos pode resultar um todo genial. " (in: O Homem sem qualidades)

Adiamento

Perdoe-nos Clarice, se suas palavras servem tão bem às bocas de tantos.

Durante a noite, Marianne acorda gritando de medo. Johan acende a lâmpada da mesa-de-cabeceira e tenta abraçá-la para a tranquilizar, mas ela se liberta a se levanta, começando a andar de uma lado para o outro. Johan espera em silêncio que diga alguma coisa.” Ela o encara, da cabeça aos pés, com terror nos olhos. Ao perceber que M. mantinha-se muda, Johan pergunta:
J:Há algo de errado?
M: Eu o matava.
J (confuso): No seu sonho?
M: É. Pela garganta. Estrangulava. Como se tivesse tal força nas mãos. Você não reagia, apenas me olhava. Não sentia dor, não pedia clemência.
J: Pensei que já tivesse superado isso. O que seu terapeuta falava sobre sonhos? Eles são óbvios!
M: Eu não tinha nenhum sentimento especial, nada relacionado ao passado. Pelo menos, não que me lembre.
J: Então por que acordou assustada?
M: No último instante, no segundo que faltava para calar sua voz, senti, eu, uma estranha dor na cabeça. Ela passou a se alastrar pelo corpo inteiro. Tudo doeu. Logo em seguida passei a ficar amortecida. Meus olhos passaram a ver menos, meus ouvidos pareciam submersos, enquanto minhas mãos...
M. Olha para as mãos, analisando cada um de seus veios, esfregando os dedos uns contra os outros, experimentando-os
J: Suas mãos?
M: Deixa pra lá. Foi apenas um sonho.
J: Você deve estar com fome.
M: Sim, vou comer algo. Você quer?
J: Não, estou com sono. Se não se importa, vou dormir.

Marianne vai até a cozinha. Abre sua bolsa onde estão os alimentos. Nenhum lhe apetece. Encontra seu caderno de anotações. Procura por uma caneta, que encontra dentro do armário da sala. Senta-se no sofá e escreve:

“Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Ma vejo agora que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.

Mas descubro que não é necessário ter esperança. É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é necessária, pois isto deveria vir a se transformar, já que sou fraca, em arma destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.

Eu poderia não entender e tu poderias não entender que prescindir da esperança - na verdade significa ação, e hoje. Não, não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido não porque é ruim, mas porque nós nos arriscamos. (...) Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.”

J acorda e vai até M., abraçando-a: Está tarde, vamos dormir.
M: olha para J., eles se beijam.
J (comovido e confuso): Será que perdemos algo de importante?
M: Isso não importa mais. Vamos dormir.

Eles se deitam, J. Abraça M. Ela pega seu braço, reforçando o movimento.
M: Boa Noite.
J apenas beija seu pescoço.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

sophisticado

que se sofisticou 1 enganado com sofismas 2 que foi alterado fraudulentamente; falsificado, adulterado 3 que tem sutileza ou utilidade sofística 4 que não é natural; postiço, artificial, afetado 5 falsamente intelectual ou rebuscado Ex.: linguagem s. 6 que tem requinte, originalidade, bom gosto; fino, requintado Ex.: 7 que demonstra conhecimentos profundos e atualizados sobre (alguma coisa); profundo, complexo, erudito Ex.: 8 que é muito avançado, complexo, bem aparelhado, eficiente; aprimorado Ex.: exame s. do cérebro

terça-feira, janeiro 30, 2007

Dias de 36 horas

Conseguimos: juntando o acesso a todas as mídias, os dias passam de 24 horas, chegando a 36:
"Study after study confirms it. People are consuming more media than ever, but they are not dropping one in favor of another," says Ms. Williamson. "They are juggling, multitasking and figuring out ways to use a number of media channels at the same time. (no emarketer).

Bem de acordo com esse janeiro corrido. A gente também devia usar isso pra aprender idiomas, fazer exercícios, tocar, ler e namorar.

domingo, janeiro 07, 2007

Capote

"Never love a wild thing, Mr. Bell", Holly advised him. "That was Doc's mistake He was always lugging home wild things. A hawk with a hurt wing. One time it was a full-grown bobcat with a broken leg. But you can't give your heart to a wild thing: the more you do , the stronger they get. Until they're strong enough to run into the woods. Or fly into a tree. Then a taller tree. Then the sky. That's how you end, Mr. Bell. If you let yourself love a wild thing. You'll end up looking at the sky.

Prioridades

"Uma extensa fronteira separa as exigências de um "early adopter" das de um consumidor "cético". Os telemáticos "early adopters" buscam superioridade tecnológica e não se importam com preços. Os demais consumidores, os ditos "conservadores", atrasam-se na adoção da novidade porque buscam confiabilidade e simplicidade - ligar, usar e não falar mais nisso. "o mundo do consumidor é muito diferente do mundo high-tech dos viciados em tecnologia e dos que experimentam os produtos e escrevem sobre eles na mídia, escreve (Donald A.) Norman.
(...)
A tecnologia pode dar a ilusão de integrar as pessoas, mas não necessariamente aguçar o espírito crítico. Aí reside um risco: o de que no próximo século a maioria das pessoas vivam "on-line" entre si e "off-line" consigo mesmas ou em relação às raízes do conhecimento. Num cenário de paradoxos e extremos, como conciliar o que é tecnologicamente prioritário, eletronicamente útil e financeiramente possível? É uma pergunta para reflexões temporárias, não para definições universais. "

Villas Boas, Sérgio. Gazeta Mercantil,Caderno Fim de Semana, 07/08/1999.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Monk alone

Anda na corda bamba de olhos fechados e ainda dá voltinhas. Fêla. Sublime.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Come chocolates pequena...

Convicções são crenças. Nada é mais certo do que uma dúvida.

ou não.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Musil I

“Parece que o homem prático e realista jamais ama a realidade, nem a leva a sério. Em criança, rastejava debaixo da mesa quando os pais não estão, para transformar o quarto deles numa aventura com esse truque tão simples e genial; quando menino, deseja ardentemente um relógio, quando adolescente, com seu relógio de ouro, deseja uma mulher que combine com ele; quando homem com relógio e mulher, anseia por uma posição elevada; e quando conseguiu, feliz, realizar esse pequeno círculo de desejos, e balança dentro dele calmamente para lá e para cá como um pêndulo, sua provisão de sonhos insatisfeitos não parece ter diminuído. Pois quando deseja elevar-se um pouco, usa de uma metáfora. Obviamente porque às vezes a neve o aborrece, ele a compara com os seios reluzentes de uma mulher, e quando os seios de sua mulher o começam a entediar, compara-os com a neve reluzente; ficaria apavorado se algum dia os bicos desses seios lhe parecessem como bicos de pomba, ou como corais incrustados, mas isso o excita poeticamente. Ele é capaz de transformar qualquer coisa em outra: neve em pele, pele em pétala de flor, pétala de flor em açúcar, açúcar em pó-de-arroz, pó-de-arroz em flocos de neve... pois aparentemente só lhe interessa transformar as coisas no que elas não são, o que prova que tal homem não suporta ficar muito tempo num lugar, não importa onde esteja.” (in: O Homem sem qualidades)

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