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quarta-feira, dezembro 27, 2006

Musil I

“Parece que o homem prático e realista jamais ama a realidade, nem a leva a sério. Em criança, rastejava debaixo da mesa quando os pais não estão, para transformar o quarto deles numa aventura com esse truque tão simples e genial; quando menino, deseja ardentemente um relógio, quando adolescente, com seu relógio de ouro, deseja uma mulher que combine com ele; quando homem com relógio e mulher, anseia por uma posição elevada; e quando conseguiu, feliz, realizar esse pequeno círculo de desejos, e balança dentro dele calmamente para lá e para cá como um pêndulo, sua provisão de sonhos insatisfeitos não parece ter diminuído. Pois quando deseja elevar-se um pouco, usa de uma metáfora. Obviamente porque às vezes a neve o aborrece, ele a compara com os seios reluzentes de uma mulher, e quando os seios de sua mulher o começam a entediar, compara-os com a neve reluzente; ficaria apavorado se algum dia os bicos desses seios lhe parecessem como bicos de pomba, ou como corais incrustados, mas isso o excita poeticamente. Ele é capaz de transformar qualquer coisa em outra: neve em pele, pele em pétala de flor, pétala de flor em açúcar, açúcar em pó-de-arroz, pó-de-arroz em flocos de neve... pois aparentemente só lhe interessa transformar as coisas no que elas não são, o que prova que tal homem não suporta ficar muito tempo num lugar, não importa onde esteja.” (in: O Homem sem qualidades)

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