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sábado, dezembro 16, 2006

Cegueira

A mulher do médico havia decidido estudar melhor como aqueles muitos haviam se acomodado no manicómio. Andava entre as camaratas tentando evitar os que lá haviam se deixado dormir. Chegou próximo à cerca, e nesta se encontrava uma rapariga que, quando a luz a permitiu descobrir, portava uma cicatriz no pescoço, silenciosamente chorando sua angústia, Quem és tu, perguntou a mulher do médico. Após recuperar-se do susto, a rapariga respondeu, Cheguei ontem, sobrevivi àquela série de empurrões em que uns foram esmagados, De onde vêns, Sou filha de um falecido político, vivia sozinha em uma casa, eu e alguns criados, e, como se decepcionada pelo próprio destino, Cheguei a considerar que nunca cegaria, esses males nunca me alcançaram, mas acabei pedindo por isso quando estava a cuidar dos que outrora me serviam, após esta experiência aprendi ponderar o uso do vernáculo, nunca soube com precisão utilizar palavras como selvageria e podridão, vi cegos pelas ruas, e meus próprios criados engatinhando e procurando a verdade dos objetos que encontravam como se tivessem acabado de vir ao mundo, o mesmo se diz da sujeira que produziam, É o que acontece, acabamos de chegar a um novo mundo, Não, estamos apenas conhecendo melhor o antigo, disse a rapariga da cicatriz, como se já tivesse recebido algumas lições.

A jovem dirigia seus vãos olhos à mulher do médico, como se ela estivesse a revelar algum segredo, Onde estou, Num manicómio desativado, quero dizer, assim o era antes de chegarmos, tentávamos buscar alguma ordem, quando vieram os mais de duzentos, Como sabe, Tentei contá-los enquanto passavam pelos corredores, mas me perdi assim que começou aquele tumulto, lembras de como cegou?, Estava a assistir televisão, ainda aqueles programas que conseguiam se manter com uns poucos cérebros e olhos, uma luta de dois homens que haviam batido seus carros, e que , durante a reportagem, cegaram, é o fim, pensei, e quando voltei meus olhos à tela, já via tudo branco, ainda lembrando do número de telefone dito pela repórter , consegui pedir por ajuda, já não havia mais quem cuidasse de nós, e aqui estou.

Depois que a mulher do médico tivesse dado à rapariga da cicatriz todas as explicações de como funcionava a sociedade ali reunida, e depois que tivesse devidamente se apresentado, passou a questionar, O que fazia, do que vivia, Fui criada em meio a muitas mordomias, destas que aprendemos a desvalorizar quando procuramos um sentido para nossa existência, meu pai me ensinou o que chamava de arte política, espero ser capaz de, ao menos nesta situação, poder colaborar com meus conhecimentos, era um grande homem, de futuro pequeno, dada sua honestidade sem valor prático, e ao invés de insistir em sua obra, preferi buscar nos livros a perfeição que falta aos homens, Mas são os homens que escrevem os livros, ponderou a mulher do médico, Sim, mas homens que negam uma realidade para criar outra, esta sim perfeita, por ironia, li um livro, será que algum dia voltarei a ler um livro, que dizia que o homem em seu estado puro é desprovido do conhecimento do desenvolvimento da sociedade, da ciência, e que se faz apenas por estar, desconhecendo o poder além das forças da natureza, Cá estamos, nestas condições de ignorância, mas o mesmo não iremos dizer do poder, submetidos à tirania do Estado e da doença, não sabemos como nos comportar senão como pequenas presas nas patas de algum felino cruel, disse a mulher do médico, baixando os olhos como que se despedindo da esperança.

O que importa agora, completou a rapariga da cicatriz ao tentar contornar tal pessimismo, é manter-nos calmos e pensar a situação. Um grande exemplo me foi dado por uma mulher que conheci, que perdera o filho para a cegueira, deixou-o em um hospital e de lá ele sumiu, nunca parou de procurá-lo, ainda que nos estágios mais avançados de sua doença, pois neste mundo de velhas doenças havia adquirido o cólera e falecera pela ausência de médicos sãos, e no leito de morte jurou que se por ventura o filho já estivesse morto, ao menos iria encontrá-lo em situação melhor, Pode não ser uma história feliz, mas sem dúvida é uma história de esperança. Quais as possibilidades de sairmos daqui, Nenhuma, já mataram muitos por terem tentado e não hesitarão em matar mais, Não poderão matar-nos todos, Sim, e o farão, Não poderei viver assim, disse a rapariga da cicatriz, voltando a valorizar a liberdade que um dia chegara a desmerecer.

Acreditas?, perguntou a rapariga da cicatriz, Em quê, a mulher do médico já estava preocupada que seu marido tivesse dado por sua falta, mesmo assim tentando colaborar com a dúvida alheia, Em qualquer coisa, que vamos sair, que vamos ficar bons, que aquela mulher vai encontrar seu filho, Só sei a última resposta, quanto às outras, nos resta esperar, E em Deus?, Neste Sim, ele quem decide nosso destino, Pois eu não, acredito que temos que fazer o que pudermos para nos salvarmos, sem esperar por ajuda alheia e sem parar para pensar, Pois não é o que estamos fazendo, O quê, Pensando, Sim, mas isto é apenas uma preparação para a luta de verdade, Já tivemos muita luta, a mulher do médico começara a ficar impaciente, talvez estivessem precisando dela, precisava voltar, a rapariga da cicatriz completa, Mas a última é a que vale.

Preciso ir, disse a mulher do médico, ver se está tudo bem, Utilizas este verbo como se ainda fosses capaz, É o hábito, Como disse, neste tipo de situação aprendemos a escolher os vocábulos, e insistes neste, me diga, como sabias que eu estava aqui se não me tocaste, quando perguntou quem era, Ouvi um barulho, Eu estava parada, não me movia, não falava, Choravas, Sim, mas nem eu mesma podia ouvir-me, Sua dor falava mais alto que suas lágrimas, disse a mulher do médico, tentando desviar o assunto, Não era dor, era angústia, temo não poder fazer muito a respeito desta situação, Mas tens esperança, completou, já pensando em sair dali, Sim, como jamais minha pouca fé tivesse me permitido, creio que era isso que movia meu pai assim como aquela mulher, O garoto está aqui, Como, O filho desta mulher. Mas não vamos contar o que aconteceu com sua mãe e deixá-lo tão amargurado como estamos, uma hora ele deixará de pedir pela mãe, e além disso faz companhia a uma rapariga que também precisa dele, Assim seja.

A mulher do médico se levantou. Suas pernas doíam. Olhou para o céu e percebeu que a manhã se aproximava. Você precisa dormir, disse à rapariga da cicatriz, Não conseguirei, não conseguia em meio a incensos e travesseiros macios , não o farei aqui, em meio a esse cheiro de podridão. Pode ir, continuarei pensando, Só não pense em luta, disse a mulher do médico, já tivemos bastantes fracassos, Não pensarei, disse a rapariga da cicatriz, consigo mesma completando, em fracassos.

A mulher do médico se dirigiu ao corredor, quando a rapariga da cicatriz falou, Responda-me apenas a uma pergunta, Diga, Vês. A mulher do médico parou, voltou a onde estava, e, com as mão trêmulas, tocou levemente o cabelo da rapariga da cicatriz, Estás cansada, deste modo não poderás raciocinar direito, pare de se preocupar, durma um pouco, e retornou à sua rota anterior. A rapariga da cicatriz abraçou os joelhos, envolveu o rosto com as mãos como que a chorar e pensou, Ao menos uma resposta.

O dia raiou. Com os barulhos típicos daqueles que ansiavam por uma nova oportunidade de mudar o rumo de seu destino, os cegos foram aos poucos se levantando. A mulher do médico voltou ao lugar onde previamente havia se encontrado com a rapariga da cicatriz e lá ela estava, dormindo com o rosto apoiado sobre seus joelhos. O cheiro de merda e os gritos dos cegos brigando por uma frivolidade qualquer não a acordavam. Pensou em travesseiros macios. Viu o rapazinho estrábico no colo da rapariga de óculos escuros conversando baixinho, ela com os dedos enrolado nos cabelos dele e pensou, Não, nunca a vida me presenteou com situação tão complexa. Passou o dia organizando a camarata, aquela que sem dúvida era a mais limpa de todas, e que mesmo assim não conseguia fugir de uma ou outra fatalidade da natureza em que se encontravam seus hóspedes. Na hora da primeira refeição, a mulher do médico chamou a rapariga da cicatriz, Coma conosco, não és de nossa camarata mas uma vez que não pertence a nenhuma podemos cada um ceder um pouco. Como se o mal também tivesse atingido sua fala, apenas balançou a cabeça e levantou-se, e apenas dois olhos no mundo sabiam que ela aceitara o convite. Enquanto a rapariga da cicatriz comia algumas bolachas, a mulher do médico via o inconformismo em cada gesto. Não sabia se o sentimento era gerado pelo hábito de ser muito bem servida ou se a rapariga da cicatriz, como conhecedora dos fins e dos meios, sabia que aquela situação era insustentável, sem ainda ter presenciado o quanto a natureza humana pode superar seus limites.

Os autofalantes começaram novamente a dar as instruções para os cegos. Era a primeira vez que a rapariga da cicatriz as ouvia. Tinha voltado para o mesmo lugar que estava na noite anterior, brincava com um pequeno graveto riscando a terra, provavelmente pensando em que formas criava. Sem ter consciência de que ali, muito perto, encontrava se um corpo morto, fedendo um cheiro com o qual já havia se acostumado, pois o corpo se adapta melhor que a mente nestas situações. A mulher do médico aproximou-se, tocou seu ombro, Não consigo lembrar de nenhuma civilização, nenhum momento histórico, e, principalmente, nenhuma razão para estar acontecendo isto, disse a rapariga da cicatriz, na verdade, sempre acreditei que a realidade era aquilo que percebíamos com os sentidos, primordialmente com os olhos, e então somos colocados entre a existência e a não existência, com posso saber o que pensar de mim e de nós, Talvez, a questão seja esta, pare de pensar tanto e junte-se aos outros, vamos tentar tornar isso suportável, Ficarei aqui mais um pouco, e lá ficou até o anoitecer.

Quando o silêncio voltou a dominar o local, levantou-se. Ao tentar um primeiro passo, tropeçou no corpo. Achando que podia ser alguém dormindo, arriscou, Desculpe, sem ter resposta tocou-o e então tomou consciência do que se tratava. Já com os olhos vermelhos seguiu em frente, recusando-se a engatinhar, tropeçando e escorregando em todas os contratempos naturais que se encontravam espalhados, Alto lá, nem mais um passo, disse o oficial do exército, Preciso falar com um de vocês, Fale com um dos seus, eles não correm mais risco, Pensei que fossem homens bravos, são do exército, não, Bravos mas não invencíveis, mais um passo e atiro, e não poderá falar nem com quem não quer, Por favor me chame seu chefe, meu pai foi político, tinha conhecidos no exército e creio que tenho algumas palavras a dizer ao seu chefe, As palavras não valem mais nada a partir de agora, Pois para mim são tudo, Você não é mais nada, e atirou.
O barulho ecoou, um sinal. Como presas alertadas pelo ronco de seu predador, os cegos levantaram suas cabeças e, em vão arregalaram seus olhos, tentando identificar de onde vinha o som. A mulher do médico foi tão rápido quanto pode ao local de disparo, e viu a cena. Viu a rapariga da cicatriz sangrando, voltando sua cabeça para trás, gemendo desta vez de dor. E naquele último suspiro, os olhos da rapariga se abriram, se moveram ao redor, fixaram-se por alguns segundos na mulher do médico, contemplando-a, e se fecharam, desta vez para sempre. A mulher do médico soube, então, que não deveria perder a esperança.

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