"De um corpo para dois; de dois para todos os belos corpos; dos belos corpos para as belas ocupações; destas aos belos conhecimentos, até que, de ciência em ciência, se eleve por fim o espírito da ciência das ciências, que nada mais é do que o conhecimento da Beleza Absoluta." (Platao, Diálogos in: introdução à estética, ariano suassuna)
"Para Hegel, tudo o que é real é cogniscível. O mundo é dilacerado entre dois extremos: de um lado, as coisas, do outro, a Idéia absoluta. Ao homem, cabe o trágico destino de ponte entre as coisas e o espiritual: ele é uma espécie de campo de batalha entre Natureza e Deus. Ele é um ser dividido, dilacerado, por ser um representante do espírito e da liberdade, colocado diante da necessidade da natureza, cega, brutal, indiferente e até hostil a ele. No seu anseio de captação do mundo, o homem sente a oposição entre sua natureza espiritual e a realidade bruta que o cerca. Tendo, porém, por um impulso irresistível, que receber esse mundo cego dentro de si, procura espiritualizá-lo, para diminuir a diferença e a oposição. É aí que ele se vale da Arte, da Religião e da Filosofia, como veículos de espiritualização do mundo. A arte é o escalão inicial através do qual, nesse processo de espiritualização do mundo, o homem procura humanizar as coisas, inserindo a Idéia no sensível. Ao espírito religioso, cabe criar as condições necessárias de interioridade, para que o homem possa acolher dentro de si a Idéia, captada no sensível, onde a Arte a introduziu. Daí resulta, dentro do espírito humano, uma oposição final entre o que existe de mais nobre e puro no homem, e o sensível, mesmo espiritualizado, que lhe foi oferecido pela Arte. Cabe à filosofia destruir a oposição, o que ela faz sendo uma espécie de síntese conciliatória entre a Arte e a Religião.
É assim que o homem tenta superar a contradição fundamental de seu destino. O homem é duplamente dividido. Ser livre, criado para o espírito e a liberdade, vê-se arremessado diante da necessidade da Natureza. E, mesmo dentro de si, está sempre dividido entre a parte mais espiritual de sua alma e as paixões. O conflito inerente à condição humana, sõ no Absoluto se resolve; mas a Beleza é uma das armas mais poderosas de que o homem dispões para superar a angústia de seu destino trágico."
"Todas as Artes, toda a Literatura, é a superação do que a vida tem de rotineiro e indiferente"
Textos, trechos, artigos e comentários encontrados por aí.
domingo, agosto 22, 2010
domingo, agosto 08, 2010
Hesíodo - teogonia
416-420
"Hoje ainda, se algum homem sobre a terra
com belos sacrifícios conforme os ritos propicia
e invoca Hécate, muita honra o acompanha
facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece;
e torna-o opulento porque ela tem força." (Hino à Hécate)
758-766
"Aí os filhos da Noite sombria têm morada,
Sono e Morte, terríveis Deuses, nunca
o Sol fulgente olha-os com seus raios
ao subir ao céu nem ao descer o céu.
Um deles, tranquilo e doce aos homens,
percorre a terra e o largo dorso do mar,
o outro, de coração de ferro e alma de bronze
não piedoso no peito,retém quem dos homens
agarra, odioso até aos Deuses imortais." (Descrição do Tártaro)
"Hoje ainda, se algum homem sobre a terra
com belos sacrifícios conforme os ritos propicia
e invoca Hécate, muita honra o acompanha
facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece;
e torna-o opulento porque ela tem força." (Hino à Hécate)
758-766
"Aí os filhos da Noite sombria têm morada,
Sono e Morte, terríveis Deuses, nunca
o Sol fulgente olha-os com seus raios
ao subir ao céu nem ao descer o céu.
Um deles, tranquilo e doce aos homens,
percorre a terra e o largo dorso do mar,
o outro, de coração de ferro e alma de bronze
não piedoso no peito,retém quem dos homens
agarra, odioso até aos Deuses imortais." (Descrição do Tártaro)
quarta-feira, julho 07, 2010
Nilton Bonder - A Alma Imoral
"A "alma"nos imortaliza com uma pequena ressalva: não é exatamente "a nós" que perpetua, mas nossa modificação.
Essa é a tragédia das experiências espirituais do ser humano. Todo esforço por produzir a compreensão de uma "alma", do desejo de imortalizar-se pela transformação de si mesmo, acaba voltando para uma definição do próprio corpo. Por isso, para muitos a alma é a avalista da moralidade, visando a proteger o corpo das ameaças de transgressão a que este está exposto. É a alma que zela então pela tradição, quando na verdade sua concepção no imaginário humano era de que viesse a ser a guardiã da traição e da evolução. Por terem muitas vezes privilegiado o desejo de preservação, as tradições preferiram eleger o corpo como inimigo do que enfrentar a "alma", a verdadeira responsável pelos rompimentos e transgressões."
"Surpreender-se é, na realidade, a maior prova de poder de um ser humano. Surpreender os outros é fazer uso de nossos truques já dominados: surpreender a si mesmo é ser um mago diante daquele que nos julgávamos ser"
"Um ser humano se sente justamente satisfeito quando consegue estar em dia com o que lhe é "correto" e o que lhe é "bom". A desonestidade é uma medida de impropriedade do que é "correto" ou do que é "bom". Para ser honesto, um indivíduo deve estar em ordem com as suas obediências e suas transgressões. Esse estado é, com certeza, extremamente instável e seu equilíbrio, inconstante. Por isso nos é tão difícil ser honestos, pois as condições para que isso aconteça se constroem a cada instante."
"Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância - um mundo de apreciação."
Essa é a tragédia das experiências espirituais do ser humano. Todo esforço por produzir a compreensão de uma "alma", do desejo de imortalizar-se pela transformação de si mesmo, acaba voltando para uma definição do próprio corpo. Por isso, para muitos a alma é a avalista da moralidade, visando a proteger o corpo das ameaças de transgressão a que este está exposto. É a alma que zela então pela tradição, quando na verdade sua concepção no imaginário humano era de que viesse a ser a guardiã da traição e da evolução. Por terem muitas vezes privilegiado o desejo de preservação, as tradições preferiram eleger o corpo como inimigo do que enfrentar a "alma", a verdadeira responsável pelos rompimentos e transgressões."
"Surpreender-se é, na realidade, a maior prova de poder de um ser humano. Surpreender os outros é fazer uso de nossos truques já dominados: surpreender a si mesmo é ser um mago diante daquele que nos julgávamos ser"
"Um ser humano se sente justamente satisfeito quando consegue estar em dia com o que lhe é "correto" e o que lhe é "bom". A desonestidade é uma medida de impropriedade do que é "correto" ou do que é "bom". Para ser honesto, um indivíduo deve estar em ordem com as suas obediências e suas transgressões. Esse estado é, com certeza, extremamente instável e seu equilíbrio, inconstante. Por isso nos é tão difícil ser honestos, pois as condições para que isso aconteça se constroem a cada instante."
"Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância - um mundo de apreciação."
domingo, junho 20, 2010
Mia Couto - Antes de Nascer o Mundo
A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, uns nasceram para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não já um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
domingo, abril 25, 2010
Processo de Clarice
Fazer de adjetivos substantivos quando só se sofrer a qualidade
ler tirando o excesso de adjetivos brilhantes
ler tirando as palavras modernas, as soluções modernas, os modismos, as repetições que indicam processos fáceis
se puder em alguns casos, deixar os fatos indicativos, tirando a idéia
retirar paradoxos, pensamentos complicado-facil
modificar frases excessivamente ricas
"o presente e o imperfeito são os únicos tempos nobres do romance"
tirar os brinquedos, o tom falsamente inocente. Tudo é sério.
Tirar os "como" de analogia: a coisa é o que ela simboliza.
Fazer diálogos vazios e vulgares entre as pessoas
não fazer dos outros personagens bonecos: surgem pouco mas dão impressão de vida e profundeza
apagar todos os vestígios de qualquer processo - não explorar senão de modo diferente os achados
espalhar mais ela-não-sabia-que-pensava
espalhar a vulgaridade dela em várias cenas
in: carta na escola ed. 44
ler tirando o excesso de adjetivos brilhantes
ler tirando as palavras modernas, as soluções modernas, os modismos, as repetições que indicam processos fáceis
se puder em alguns casos, deixar os fatos indicativos, tirando a idéia
retirar paradoxos, pensamentos complicado-facil
modificar frases excessivamente ricas
"o presente e o imperfeito são os únicos tempos nobres do romance"
tirar os brinquedos, o tom falsamente inocente. Tudo é sério.
Tirar os "como" de analogia: a coisa é o que ela simboliza.
Fazer diálogos vazios e vulgares entre as pessoas
não fazer dos outros personagens bonecos: surgem pouco mas dão impressão de vida e profundeza
apagar todos os vestígios de qualquer processo - não explorar senão de modo diferente os achados
espalhar mais ela-não-sabia-que-pensava
espalhar a vulgaridade dela em várias cenas
in: carta na escola ed. 44
quarta-feira, abril 07, 2010
Bukowski
Style is the answer to everything.
A fresh way to approach a dull or dangerous thing
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without it
To do a dangerous thing with style is what I call art
Bullfighting can be an art
Boxing can be an art
Loving can be an art
Opening a can of sardines can be an art
Not many have style
Not many can keep style
I have seen dogs with more style than men,
although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.
When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun,
that was style.
Or sometimes people give you style
Joan of Arc had style
John the Baptist
Jesus
Socrates
Caesar
García Lorca.
I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is the difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, naked, walking out of the bathroom without seeing me.
A fresh way to approach a dull or dangerous thing
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without it
To do a dangerous thing with style is what I call art
Bullfighting can be an art
Boxing can be an art
Loving can be an art
Opening a can of sardines can be an art
Not many have style
Not many can keep style
I have seen dogs with more style than men,
although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.
When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun,
that was style.
Or sometimes people give you style
Joan of Arc had style
John the Baptist
Jesus
Socrates
Caesar
García Lorca.
I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is the difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, naked, walking out of the bathroom without seeing me.
segunda-feira, março 22, 2010
Scott Fitzgerald
Betty dedicou meia hora ao camelo. Dedicava pelo menos meia hora a todos os visitantes. Em geral, era o suficiente. Quando ela se acercava de algum homem desconhecido, as debutantes habituais costumavam debandar no mesmo instante e desaparecer, como uma coluna cerrada desdobrando-se diante de uma metralhadora. E, assim, foi concedido a Perry Parkhurst o privilégio único de ver sua amada tal como os outros a viam. Ela flertava escandalosamente com ele.
quinta-feira, março 11, 2010
quarta-feira, março 10, 2010
Scott Fitzgerald
O boa-vida saiu para o terraço e refugiou-se num canto deserto e escuro, entre o luar que caía sobre o gramado e a única porta iluminada dom salão do baile. Lá, encontrou uma cadeira, acendeu um cigarro e mergulhou no descuidado devaneio que constituía seu espírito habitual. Naquele momento, porém, era um devaneio que a noite e o cheiro quente e úmido das esponjas de pó de arroz, enviadas nos decotes dos vestidos, a destilar ricas fragrâncias que flutuavam pela porta aberta, tornavam sensual. A própria música, abafada por um trombone ruidoso, convertia-se em algo quente e vago, um ritmo langoroso que se harmonizava com o arrastar de tantos pés.
quarta-feira, dezembro 02, 2009
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