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quinta-feira, maio 24, 2007

Maiakóvski

“Você partiu
como se diz,
para outro mundo

Vácuo...
Você sobe,
Entremeado às estrelas.

Nem álcool,
Nem moedas
Sóbrio
Vôo sem fundo.
Não Iessiênin,
Não posso
Fazer troça –
Na boca
Uma lasca amarga
Não a mofa.
Olho –
Sangue nas mãos frouxas
Você sacode
O invólucro
Dos ossos
Pare,
Basta!
Você perdeu o senso?
Deixar
Que a cal
Mortal
Lhe cubra o rosto?
Você,
Com todo esse talento
Para o impossível
Hábil
Como poucos.
Por que?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho
-a crítica esbraveja.
Tese:
Refratário à sociedade.
Corolário:
Muito vinho e cerveja
Sim,
Se você trocasse
A vida boêmia
Pela classe,
A classe agiria em você,
E lhe daria um norte.
A classe
Por acaso
Mata a sede com xarope?
Ela quer beber –
- nada tem de abstêmia.
Sim,
Se você tivesse
Um patrono no “Posto”-
Ganharia
Um conteúdo bem diverso:
Todo dia
Uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos
como Dorônin.
Remédio?
Para mim,
Despautério:
Mais cedo ainda
Você estaria nessa corda.
Melhor
Morrer de vodca
Que de tédio!
Não revelam
As razões deste impulso
Nem o nó
Nem a navalha aberta.
Talvez,
Se houvesse tinta
No “Inglaterra”
Você não cortaria os pulsos.
Os plagiários felizes
Pedem: bis!
Já todo
Um pelotão
Em auto-execução.
Para que
Aumentar
O rol de suicidas?
Antes
Aumentar
A produção de tinta!
Agora
Para sempre
Tua busca
Está cerrada.

Difícil
E inútil
Excogitar enigmas
O povo,
O inventa-línguas,
Perdeu
O canoro
Contramestre de noitadas.
E levam
Versos velhos
Ao velório,
Sucata
De extintas exéquias.
Rimas gastas
Empalam
Os despojos –
É assim
Que se honra
Um poeta?
Não
Te ergueram ainda um monumento –
Onde
O som do bronze
Ou o grave granito? –
E já vão
Empilhando do jazigo
Dedicatórias e ex-votos:
Excremento.
Teu nome
Escorrido no muco,
Teus versos,
Sobinov os babuja,
Voz quérula
Sob bétulas murchas -
“Nem palavra, amigo
nem so-lu-ço”
Ah,
Que eu saberia dar um fim
Á esse Leonid Loengrim!
Saltaria
- escândalo estridente:
Chega
De tremores de voz!
Assobios
Nos ouvidos dessa gente,
Ao diabo
Com suas mães e avós!
Para que toda
Essa corja explodisse
Inflando
Os escuros
Redingotes,
E Kógan
Atropelado fugisse,
Espetando
Os transeuntes
Nos bigodes.
Por enquanto
Há escória
de sobra.
O tempo é escasso –
Mãos à obra,
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
Para cantá-la
Em seguida.
Os tempos estão duros
Para o artista:
Mas dizei-me,
Anêmicos e anões,
Os grandes
Onde,
Em que ocasião,
Escolhera,
Uma estrada
Batida?
General
Da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
Cuspa balas
Para trás,
E o vento
No passado
Só desfaça
Um maço de cabelos.
Para o júbilo
O planeta
Está imaturo.
É preciso
Arrancar alegria
Ao futuro.
Nesta vida
Morrer não é difícil
O difícil
É a vida e seu ofício”

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