Eu, contudo, não sei. Não sei, por exemplo, quem se esconde hoje em dia sob as barbas do Papai Noel, não sei quem o diabo leva em seu alforje, não sei como se abrem e fecham as chaves do gás; pois volta a se difundir um ar de advento, ou continua se difundindo ainda, não sei, talvez a título de ensaio; não sei para quem estarão ensaiando, não sei se posso crer, oxalá sim, que limpem com amor as chaves do gás para que cantem não sei em que manhã, não sei em que tarde, não sei se as horas do dia têm algo a ver com isso; porque o amor não tem hora, e a esperança não tem fim, e a fé não tem limites; só o saber e a ignorância estão ligados ao espaço e ao tempo, e terminam a maioria das vezes prematuramente nas barbas, alforjes e amêndoas, de modo que volto a repetir: eu não sei, oh, eu não sei, por exemplo, com que se enchem as tripas, que intestinos são necessários para preenchê-las, não sei com quê, por mais legíveis que sejam os preços do recheio, fino ou grosseiro; não sei o que está compreendido no preço, não sei com que se recheiam os dicionários, assim como as tripas; não sei de quem é a carne nem a linguagem: as palavras significam, os açougueiros calam, eu corto vidros, você abre os livros, eu leio aquilo de que gosto, você não sabe de que gosta: fatias de lingüiça e citações de tripas e livros – e nunca chegaremos a saber quem teve de calar quem teve de emudecer para que as tripas pudessem se encher e os livros pudessem falar, livros embutidos, apertados, de letra miúda, não sei, mas suspeito: são os mesmos açougueiros que enchem os dicionários e as tripas com linguagem e com lingüiça; não há nenhum Paulo, o homem se chamava Saulo, e como Saulo falou à gente de Corinto de algumas lingüiças prodigiosas, que chamou de fé, esperança e amor, e elogiou-as dizendo que eram de fácil digestão, e ainda hoje, sob alguma das formas sempre mutantes de Saulo, tenta impingi-las a nós.
Quanto a mim, arrebataram-me o vendedor de brinquedos e, com ele, queriam eliminar do mundo os brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tocava trompete maravilhosamente.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e vendia tambores de lata esmaltados de vermelho e branco.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tinha quatro gatos, um dos quais se chamava Bismark.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e dependia do vendedor de brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e matou seus quatro gatos com o atiçador.
Era uma vez um relojoeiro que se chamava Laubschad e era membro da sociedade protetora dos animais.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e lhe arrebentaram o seu vendedor de brinquedos.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e levou consigo todos os brinquedos do mundo.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e, se não está morto, continua vivendo hoje e tocando sempre maravilhosamente o trompete.
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sábado, maio 05, 2007
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