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quarta-feira, julho 07, 2010

Nilton Bonder - A Alma Imoral

"A "alma"nos imortaliza com uma pequena ressalva: não é exatamente "a nós" que perpetua, mas nossa modificação.

Essa é a tragédia das experiências espirituais do ser humano. Todo esforço por produzir a compreensão de uma "alma", do desejo de imortalizar-se pela transformação de si mesmo, acaba voltando para uma definição do próprio corpo. Por isso, para muitos a alma é a avalista da moralidade, visando a proteger o corpo das ameaças de transgressão a que este está exposto. É a alma que zela então pela tradição, quando na verdade sua concepção no imaginário humano era de que viesse a ser a guardiã da traição e da evolução. Por terem muitas vezes privilegiado o desejo de preservação, as tradições preferiram eleger o corpo como inimigo do que enfrentar a "alma", a verdadeira responsável pelos rompimentos e transgressões."

"Surpreender-se é, na realidade, a maior prova de poder de um ser humano. Surpreender os outros é fazer uso de nossos truques já dominados: surpreender a si mesmo é ser um mago diante daquele que nos julgávamos ser"

"Um ser humano se sente justamente satisfeito quando consegue estar em dia com o que lhe é "correto" e o que lhe é "bom". A desonestidade é uma medida de impropriedade do que é "correto" ou do que é "bom". Para ser honesto, um indivíduo deve estar em ordem com as suas obediências e suas transgressões. Esse estado é, com certeza, extremamente instável e seu equilíbrio, inconstante. Por isso nos é tão difícil ser honestos, pois as condições para que isso aconteça se constroem a cada instante."

"Somente no dia em que a traição não ferir o traído ou a tradição, mas despertar ambos para novas possibilidades que se descortinam através dela, surgirá um mundo muito além da tolerância - um mundo de apreciação."

domingo, junho 20, 2010

Mia Couto - Antes de Nascer o Mundo

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, uns nasceram para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não já um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

domingo, abril 25, 2010

Processo de Clarice

Fazer de adjetivos substantivos quando só se sofrer a qualidade

ler tirando o excesso de adjetivos brilhantes

ler tirando as palavras modernas, as soluções modernas, os modismos, as repetições que indicam processos fáceis

se puder em alguns casos, deixar os fatos indicativos, tirando a idéia

retirar paradoxos, pensamentos complicado-facil

modificar frases excessivamente ricas

"o presente e o imperfeito são os únicos tempos nobres do romance"

tirar os brinquedos, o tom falsamente inocente. Tudo é sério.

Tirar os "como" de analogia: a coisa é o que ela simboliza.

Fazer diálogos vazios e vulgares entre as pessoas

não fazer dos outros personagens bonecos: surgem pouco mas dão impressão de vida e profundeza

apagar todos os vestígios de qualquer processo - não explorar senão de modo diferente os achados

espalhar mais ela-não-sabia-que-pensava

espalhar a vulgaridade dela em várias cenas

in: carta na escola ed. 44

quarta-feira, abril 07, 2010

Bukowski

Style is the answer to everything.
A fresh way to approach a dull or dangerous thing
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without it
To do a dangerous thing with style is what I call art

Bullfighting can be an art
Boxing can be an art
Loving can be an art
Opening a can of sardines can be an art

Not many have style
Not many can keep style
I have seen dogs with more style than men,
although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.

When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun,
that was style.
Or sometimes people give you style
Joan of Arc had style
John the Baptist
Jesus
Socrates
Caesar
García Lorca.

I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is the difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, naked, walking out of the bathroom without seeing me.

segunda-feira, março 22, 2010

Scott Fitzgerald

Betty dedicou meia hora ao camelo. Dedicava pelo menos meia hora a todos os visitantes. Em geral, era o suficiente. Quando ela se acercava de algum homem desconhecido, as debutantes habituais costumavam debandar no mesmo instante e desaparecer, como uma coluna cerrada desdobrando-se diante de uma metralhadora. E, assim, foi concedido a Perry Parkhurst o privilégio único de ver sua amada tal como os outros a viam. Ela flertava escandalosamente com ele.

quinta-feira, março 11, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Scott Fitzgerald

O boa-vida saiu para o terraço e refugiou-se num canto deserto e escuro, entre o luar que caía sobre o gramado e a única porta iluminada dom salão do baile. Lá, encontrou uma cadeira, acendeu um cigarro e mergulhou no descuidado devaneio que constituía seu espírito habitual. Naquele momento, porém, era um devaneio que a noite e o cheiro quente e úmido das esponjas de pó de arroz, enviadas nos decotes dos vestidos, a destilar ricas fragrâncias que flutuavam pela porta aberta, tornavam sensual. A própria música, abafada por um trombone ruidoso, convertia-se em algo quente e vago, um ritmo langoroso que se harmonizava com o arrastar de tantos pés.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

sexta-feira, novembro 20, 2009

quarta-feira, novembro 18, 2009

Caio Fernando Abreu

"Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo
cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto
primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor
de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para,
quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia
voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a
anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais
estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena.
Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria
insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é
compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso, igual ao
direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem
ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas
banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para
esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim.

Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito
e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica
falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia."

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