“Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com a soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com a minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio”.
Textos, trechos, artigos e comentários encontrados por aí.
terça-feira, abril 24, 2007
Da beleza
Wanderley Guilherme dos Santos, embora não original, resume bem: " As publicações consagram o consagrado, garantia de sucesso de vendagem. Nelas se pode até datar os momentos de transformação no conceito de beleza, que outra coisa não é senão apresentar como belo algumas opções de feio, pois, enquanto o conceito de beleza é único, o de feiúra é plural. Todas as formas estéticas que diferem daquela considerada bela são feias." e " o assassinato da última beleza será ao mesmo tempo o assassinato do último feio". Do Eu&, Valor, 13/04/07.
domingo, março 04, 2007
A Train
You must take the A Train
To go to Sugar Hill way up in Harlem
If you miss the A Train
You'll find you've missed the quickest way to Harlem
Hurry, get on, now, it's coming
Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!)
Get on the A Train
Soon you will be on Sugar Hill in Harlem
To go to Sugar Hill way up in Harlem
If you miss the A Train
You'll find you've missed the quickest way to Harlem
Hurry, get on, now, it's coming
Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!)
Get on the A Train
Soon you will be on Sugar Hill in Harlem
Whitman
“This is what you shall do: love the earth and the sun the animals, depise the riches, give alms to alks, stand up for stupid and crazy, devote your income and labour to others, hate tyrants, argue not concerning god, have patience and indulgence toward the people, take you hat to nothing known or unknown or to any man or number of men, go freely with powerful uneducated persons and the young and the mother of families, read these leaves in open air every season of every year of your life, re-examine all you have been told at school or church or in any book, dismiss whatever insults in your soul, and your very flesh shall be a great poem and have the richest fluency not only in word but in the silent lines of its lips and face between the lashes of your eyes and in every motion and joint of your body”
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Rosa
“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que deus não há. Estremeço. Como não ter deus?! Com deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível , o mundo se resolve. Mas se não tem deus, há-de a gente perdidos no vai e vem, e a vida é burra. É o aberto perigoso das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é contra todos os acasos. Tendo deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem, está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas nem braços. Dor não até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimentos? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é deus, é estado de demônio. deus existe mesmo quando não há. Mas demônio não existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. Inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer o céu é porque quer um fim: mas com um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter igual em meus gostos. O que invejo é a instrução do senhor”
sábado, fevereiro 10, 2007
Trópico de capricórnio
“A vida corre sem rumo diante da vitrina. Eu estou ali deitado como um presunto iluminado esperando que um machado caia. Na verdade, nada há a temer, porque tudo é cuidadosamente cortado em pequenas fatias e embrulhado em celofane. De repente todas as luzes da cidade apagam-se e as sereias soam seu alarma. A cidade está envolta em gás venenoso, bombas estão estourando, corpos mutilados voam pelo ar. Há eletricidade em tôda parte, assim como sangue, estilhaços e alto-falantes. Os homens no ar estão cheios de alegria; os que se encontra embaixo estão gritando e berrando. Após os gás e as chamas terem comido tôda a carne começa a dança do esqueleto. Eu observo da vitrina que agora está escura. É melhor que o saque de Roma porque há mais coisas a destruir.
Por que os esqueletos dançam com tal êxtase? – pergunto eu. É a queda do mundo? É a dança da morte que com tanta freqüência foi anunciada? É pavoroso ver milhões de esqueletos dançando na neve enquanto a cidade afunda. Alguma coisa voltará a nascer? Crianças sairão do útero? Haverá comida e vinho? Há homens no ar, não há dúvida. Eles descerão para saquear. Haverá cólera e disenteria. Aquêles que estavam em cima e triunfantes perecerão com o resto. Tenho a firme impressão de que serei o último homem sobre a terra. Sairei da vitrina quando tudo estiver acabado e caminharei sobre as ruínas. Terei a terra inteira só pra mim."
Por que os esqueletos dançam com tal êxtase? – pergunto eu. É a queda do mundo? É a dança da morte que com tanta freqüência foi anunciada? É pavoroso ver milhões de esqueletos dançando na neve enquanto a cidade afunda. Alguma coisa voltará a nascer? Crianças sairão do útero? Haverá comida e vinho? Há homens no ar, não há dúvida. Eles descerão para saquear. Haverá cólera e disenteria. Aquêles que estavam em cima e triunfantes perecerão com o resto. Tenho a firme impressão de que serei o último homem sobre a terra. Sairei da vitrina quando tudo estiver acabado e caminharei sobre as ruínas. Terei a terra inteira só pra mim."
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