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sábado, junho 30, 2007

Queda (Camus)

Era preciso submeter-se e reconhecer a culpa. Era preciso viver no desconforto. É verdade, o senhor não conhece aquela cela de masmorra, a que na Idade Média chamavam de “desconforto”. Em geral, esqueciam-nos lá para o resto da vida. Esta cela distinguia-se das outras por suas engenhosas dimensões. Não era suficientemente alta para se poder ficar de pé, nem suficientemente larga para se poder deitar. Tinha-se de assumir uma posição encolhida, viver na diagonal; o sono era uma queda; a vigília, acocorada. Meu caro, era engenhoso, e eu peso as minhas palavras, neste achado tão simples. Todos os dias, através do imutável constrangimento que anquilosava o seu corpo, o condenado aprendia que era culpado e que a inocência consiste em poder esticar-se livremente. Pode-se imaginar nesta cela um freqüentador das alturas e das cobertas dos navios? O quê? Podia-se viver nesta cela e ser inocente? É impossível, altamente improvável! Ou então, a minha lógica cairia por terra. Que a inocência se veja restrita a viver corcunda, recuso-me a considerar um único segundo esta hipótese. Além disso, não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros, eis minha fé e minha esperança.



(...)

Antigamente, só tinha liberdade na boca. No café da manhã, eu a passava nas minhas torradas, mastigava-a durante todo o dia, levava ao mundo um hálito deliciosamente refrescado pela liberdade.




(...)

Enfim, como se vê, o essencial não é mais ser livre e obedecer, no arrependimento, a quem for mais malandro do que nós. Quando formos todos culpados, será a democracia. Sem contar, caro amigo, que é preciso nos vingarmos de ter de morrer sozinhos. A morte é solitária, ao passo que a solidão é coletiva.

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