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sábado, junho 30, 2007

Estrangeiro (Camus)

Resumiu os fatos a partir da morte de mamãe. Relembrou minha insensibilidade, o meu desconhecimento da idade dela, o meu banho de mar do dia seguinte, com uma mulher, o cinema, Fernandel e, por fim, a volta com Marie. Levei tempo para compreender, nesse momento, por que ele dizia “sua amante” e, para mim, ela era Marie. Chegou, em seguida, à história de Raymond . Achei que à sua maneira de ver os acontecimentos não faltava clareza. O que dizia era plausível. Eu combinara com Raymond escrever a carta para atrair sua amante e entregá-la aos maus tratos de um homem de “moral duvidosa”. Eu provocara, na praia, os adversários de Raymond. Este fora ferido. Eu lhe pedira o revólver. Voltara sozinho para me servir dele. Abatera o árabe, tal como planejava. Disparara uma vez. Esperara. E, “para ter certeza de que o trabalho fora bem feito”, disparara mais quatro balas, calmamente, com firmeza, de uma forma de certo modo refletida.
- E aqui está, meus senhores – disse o promotor. Acabo de descrever, diante dos senhores, a série de acontecimentos que levaram este homem a matar com pleno conhecimento de causa.. Insisto nisso – disse ele. – Pois não se trata de um crime comum, de um ato impensado que os senhores poderiam achar atenuado para as circunstâncias. Este homem, senhores, este homem é inteligente. Ouviram-no falar, não é verdade? Sabe responder. Conhece o valor das palavras. E não se pode dizer que tenha agido sem dar conta do que estava fazendo.

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