Textos, trechos, artigos e comentários encontrados por aí.
sábado, maio 05, 2007
Musil 3
Quanto melhor a cabeça, tanto menos se percebe dela nesse processo. Por isso o pensamento, enquanto não está acabado, é um estado muito miserável, parecido com uma cólica de todas as volutas do cérebro; e quando fica concluído, já não tem a forma de um pensamento, como se experimentou, mas tem forma de algo pensado, o que infelizmente é impessoal, pois o pensamento se dirige para fora e se comunica ao mundo. Praticamente não se consegue surpreender o momento entre o pessoal e o impessoal, quando alguém pensa, e por isso o pensamento é um fato tão embaraçoso para os escritores, que estes o preferem evitar.
Grass
Eu, contudo, não sei. Não sei, por exemplo, quem se esconde hoje em dia sob as barbas do Papai Noel, não sei quem o diabo leva em seu alforje, não sei como se abrem e fecham as chaves do gás; pois volta a se difundir um ar de advento, ou continua se difundindo ainda, não sei, talvez a título de ensaio; não sei para quem estarão ensaiando, não sei se posso crer, oxalá sim, que limpem com amor as chaves do gás para que cantem não sei em que manhã, não sei em que tarde, não sei se as horas do dia têm algo a ver com isso; porque o amor não tem hora, e a esperança não tem fim, e a fé não tem limites; só o saber e a ignorância estão ligados ao espaço e ao tempo, e terminam a maioria das vezes prematuramente nas barbas, alforjes e amêndoas, de modo que volto a repetir: eu não sei, oh, eu não sei, por exemplo, com que se enchem as tripas, que intestinos são necessários para preenchê-las, não sei com quê, por mais legíveis que sejam os preços do recheio, fino ou grosseiro; não sei o que está compreendido no preço, não sei com que se recheiam os dicionários, assim como as tripas; não sei de quem é a carne nem a linguagem: as palavras significam, os açougueiros calam, eu corto vidros, você abre os livros, eu leio aquilo de que gosto, você não sabe de que gosta: fatias de lingüiça e citações de tripas e livros – e nunca chegaremos a saber quem teve de calar quem teve de emudecer para que as tripas pudessem se encher e os livros pudessem falar, livros embutidos, apertados, de letra miúda, não sei, mas suspeito: são os mesmos açougueiros que enchem os dicionários e as tripas com linguagem e com lingüiça; não há nenhum Paulo, o homem se chamava Saulo, e como Saulo falou à gente de Corinto de algumas lingüiças prodigiosas, que chamou de fé, esperança e amor, e elogiou-as dizendo que eram de fácil digestão, e ainda hoje, sob alguma das formas sempre mutantes de Saulo, tenta impingi-las a nós.
Quanto a mim, arrebataram-me o vendedor de brinquedos e, com ele, queriam eliminar do mundo os brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tocava trompete maravilhosamente.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e vendia tambores de lata esmaltados de vermelho e branco.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tinha quatro gatos, um dos quais se chamava Bismark.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e dependia do vendedor de brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e matou seus quatro gatos com o atiçador.
Era uma vez um relojoeiro que se chamava Laubschad e era membro da sociedade protetora dos animais.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e lhe arrebentaram o seu vendedor de brinquedos.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e levou consigo todos os brinquedos do mundo.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e, se não está morto, continua vivendo hoje e tocando sempre maravilhosamente o trompete.
Quanto a mim, arrebataram-me o vendedor de brinquedos e, com ele, queriam eliminar do mundo os brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tocava trompete maravilhosamente.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e vendia tambores de lata esmaltados de vermelho e branco.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e tinha quatro gatos, um dos quais se chamava Bismark.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e dependia do vendedor de brinquedos.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e matou seus quatro gatos com o atiçador.
Era uma vez um relojoeiro que se chamava Laubschad e era membro da sociedade protetora dos animais.
Era uma vez um tambor que se chamava Oskar e lhe arrebentaram o seu vendedor de brinquedos.
Era uma vez um vendedor de brinquedos que se chamava Markus e levou consigo todos os brinquedos do mundo.
Era uma vez um músico que se chamava Meyn e, se não está morto, continua vivendo hoje e tocando sempre maravilhosamente o trompete.
Prezados
Prezar, na versão pronominal = sentir orgulho de si mesmo, ter amor-próprio. Uma mulher que se preza não aceita vitupérios.
terça-feira, abril 24, 2007
Amarelinha
“Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com a soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com a minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio”.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os ciclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio”.
Da beleza
Wanderley Guilherme dos Santos, embora não original, resume bem: " As publicações consagram o consagrado, garantia de sucesso de vendagem. Nelas se pode até datar os momentos de transformação no conceito de beleza, que outra coisa não é senão apresentar como belo algumas opções de feio, pois, enquanto o conceito de beleza é único, o de feiúra é plural. Todas as formas estéticas que diferem daquela considerada bela são feias." e " o assassinato da última beleza será ao mesmo tempo o assassinato do último feio". Do Eu&, Valor, 13/04/07.
domingo, março 04, 2007
A Train
You must take the A Train
To go to Sugar Hill way up in Harlem
If you miss the A Train
You'll find you've missed the quickest way to Harlem
Hurry, get on, now, it's coming
Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!)
Get on the A Train
Soon you will be on Sugar Hill in Harlem
To go to Sugar Hill way up in Harlem
If you miss the A Train
You'll find you've missed the quickest way to Harlem
Hurry, get on, now, it's coming
Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!)
Get on the A Train
Soon you will be on Sugar Hill in Harlem
Whitman
“This is what you shall do: love the earth and the sun the animals, depise the riches, give alms to alks, stand up for stupid and crazy, devote your income and labour to others, hate tyrants, argue not concerning god, have patience and indulgence toward the people, take you hat to nothing known or unknown or to any man or number of men, go freely with powerful uneducated persons and the young and the mother of families, read these leaves in open air every season of every year of your life, re-examine all you have been told at school or church or in any book, dismiss whatever insults in your soul, and your very flesh shall be a great poem and have the richest fluency not only in word but in the silent lines of its lips and face between the lashes of your eyes and in every motion and joint of your body”
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Assinar:
Postagens (Atom)

