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sábado, fevereiro 09, 2008

Caeiro

"Há muita metafísica em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre deus e alma
E sobre a criação do mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério da cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar nas muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode mais pensar em mais nada,
Porque a luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica há naquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas
Que é a de não saber para quem vivem
Nem saber o que não sabem?

“Constituição íntima das cousas”...
“Sentido íntimo do universo”...
Tudo isso é falso, tudo isso não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É, acrescentando, como pensar na saúde
Ou levar um copo d´água às fontes.

Não acredito em deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro
Dizendo-me, “Aqui estou”

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar nelas ensina.)

Mas se deus é as flores e as árvores
E os montes, o sol e o luar,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de deus que deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora"

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