Textos, trechos, artigos e comentários encontrados por aí.

domingo, outubro 07, 2007

Musil 4

Por infelicidade, nada mais difícil de reproduzir na literatura do que um homem que pensa. Um grande descobridor, quando certa vez lhe perguntaram como conseguia ter tantas idéias novas, ele respondeu: “pensando nisso o tempo todo”. E com efeito, pode-se dizer que as idéias inesperadas só aparecem porque esperamos por elas. Constituem em grande parte um resultado positivo de caráter, de inclinações constantes, de ambição persistente, de ocupação incansável. Como deve ser monótona essa persistência! Por outro prisma, a solução de uma tarefa intelectual não acontece de modo muito diferente do que quando um cão, levando um bastão na boca, quer passar por uma porta estreita; ele vira a cabeça para a esquerda e direita, até o bastão entrar, e nós agimos de um modo muito parecido, apenas com a diferença de que não tentamos fazer isso de modo inconsciente, mas, pela experiência, já sabemos mais ou menos como proceder. E embora uma cabeça inteligente tenha muito mais habilidade e experiência nos movimentos do que uma cabeça tola, a solução também para ela chega de forma inesperada, acontece de repente e sentimos com um vago espanto que os pensamentos se fizeram por si, em vez de esperarem pelo seu autor. Essa sensação de assombro é o que muita gente chama hoje em dia de intuição, depois de antigamente a chamarem inspiração, e acreditam dever enxergar nela algo de suprapessoal; mas é apenas algo impessoal, isto é, a afinidade e a solidariedade das próprias coisas que se encontram dentro de uma cabeça.

Nenhum comentário:

Twitter Updates